Filme “O Farol” | O Isolamento e o que jogamos no ‘oceano’ que volta para nos aterrorizar


Por Caio Garrido *

 

Em algum momento, nos sentimos abandonados à própria sorte.

Este sentimento é premente durante o isolamento quase “consentido” neste pacto social durante a pandemia. Presume-se que as pessoas estão conectadas via internet, mas como já li em algum lugar – nesta torrente deste mar de informações vindo de nossas redes sociais onde alguns peixes são fisgados enquanto outros fogem como sereias indestrutíveis e perigosas, pois as esquecemos – as pessoas consentem em solidarizarem-se umas com as outras muito por um individualismo compartilhado do que por uma razão somente ética.

Como disse o psicanalista Edson Luiz André de Sousa, “se por um lado vemos algumas atitudes colaborativas, por outro nos assustamos com uma espécie de guerra sanitária que surge, com aviões sendo retidos em alguns países com máscaras e equipamentos hospitalares, enfim, um verdadeiro horror”.

E ainda, corroborando a afirmação que faço mais acima, Heiner Mühlmann, de acordo com o seu modelo científico-cultural da “cooperação sob stress maximal”, diz que “a emergência de uma concertação coletiva em face de uma ameaça – real ou virtual – que afeta o todo da sociedade, não significa que o bem comum se sobrepõe aos interesses privados, mas constitui tão só o exemplo de um tipo específico de ‘cooperação egoísta’, no qual a cooperação possui mais vantagens individuais do que o puro e simples interesse de cada indivíduo por si só” (fonte: Luís Carneiro, em A dissidência no império biopolítico do fim).

Pois então, enterrados em nossos sofás, observamos como faroleiros atônitos o desenrolar dos fatos, e a ausência de conhecimento que nos permeia referente ao vírus e o futuro próximo indefinível, assistindo passivamente e estupefactos a insólita ausência de direção do leme do país.

E é em busca de uma nova velha ética que proponho o texto aqui: readquirir/adquirir alguma noção ética capaz de melhorar a já nossa tão miserável relação com a natureza – com a nossa natureza e essa “fora” de nós.

Existem mil maneiras de se narrar o que vivemos. O ponto de vista no qual encaro a situação faz-me descer ao Hades para tentar de lá extrair algumas consequências. Apesar de que tal vislumbre terrificante da realidade pode nos oprimir ainda mais, é justa a causa de transformar esses objetos que encontramos em seu fundo em sentidos possíveis para melhor vivenciar e imaginar um futuro possível, ainda que manquejante.

Vamos então ao que interessa: O filme lançado ao mar de nossas conjecturas através do título que embasa esse texto.

Nele é narrada a história dos personagens Thomas Wake e Ephraim Winslow (por Willem Dafoe e Robert Pattinson, respectivamente) – aliás, com umas das mais belíssimas atuações já vistas no cinema. Thomas Wake, o chefe, é o responsável pelo farol daquela ilha isolada, que ao contratar o jovem Ephraim Winslow para substituir o ajudante anterior, faz desenrolar entre eles, situações e falas sobre todo tipo de insólitas histórias de monstros, maldições, sereias, e superstições que causam terror, além de conflitos e embates constantes entre os dois.

O filme constrói uma fábula sobre isolamento e loucura, na consentida clausura a céu aberto e na edificação fálica do farol.

Desde seu início, um limiar nos é apresentado através de imagens. Não tão claro, onde o contraste do preto com o branco faz o cinza ganhar uma exuberância como só os grandes cineastas e fotógrafos conseguem. A simetria que as imagens do filme sugerem são também constantes: a chegada dos dois no território do farol, enquanto aparentemente outros dois colaboradores vão embora do obscuro lugar; o quarto dos dois, onde as camas são dispostas de forma simétrica no enquadramento; a mesa onde comem; sempre salientando também a não simetria dos dois, onde um tem a posse das chaves – o chefe – e só ele tem acesso ao farol, e o outro sofrendo a condição de explorado, além das vicissitudes normais de um trabalho subalterno comum. Lembro-me de Kafka e suas narrativas onde um personagem sempre sofre acusações absurdas e sem sentido. Eu poderia elencar outras situações onde essa simetria de imagens e de ações dos dois personagens são apresentadas, mas seria me estender demais nesse ponto. Mas enfatizo essa questão, pois tal tema parece fazer parte do argumento principal em torno dos significados profundos que o diretor quer disparar em seus espectadores.

As engrenagens do farol, com seus mecanismos de relógio duramente alimentados por homens, é a máquina de moer do mundo. Os faroleiros, guardas do farol, guardiões da luz – ou melhor: lightkeepers – ali mostrados, são almas suplicantes por sentido num mundo esvaziado.

A atmosfera de desconfiança é levada às últimas consequências durante toda a duração da película, com essa estranha relação entre esses mantenedores da luz e o farol nos fazendo pensar em que tipo de pessoa que se isola num farol destes a brindar os marinheiros com um pouco de sentido no mar aberto; O flerte com o desconhecido? Com a morte? Uma forma de suicídio – ‘desconhecídio’? Exorcizar os demônios na noite, enquanto o “demônio do meio-dia” insiste em nos atacar?

O mar tem sim seus segredos, seus enigmas. O que ele esconde é o que escondemos de nós mesmos. Para onde jogamos nossos terrores arcaicos? Nosso mal? Por ora, jogarmos certas coisas pra debaixo do tapete, não funciona mais; No isolamento, tudo isso vem à tona. O que normalmente escondemos, aquilo que geralmente dá pra seguir fingindo vida afora, fica exposto, o que pode tornar a vida insuportável, enlouquecedora e paralisante (inclusive a intensidade de nossos instintos pode nos paralisar). Ou seja: não dá pra seguirmos vivendo e fingindo da mesma maneira que fazíamos antes da quarentena. Vamos percebendo através desse confinamento que nosso trabalho já não faz sentido, ou que nossas máscaras sociais não funcionam mais para disfarçar um desconhecimento sobre quem realmente somos e nossas verdadeiras qualidades, a desigualdade econômica e social se torna gritante (como no filme, em alguns momentos, a saída parece ser só a do grito), a defenestração de nossas florestas amazônicas acordam-nos no meio da noite clara, além de tantas outras coisas que têm acontecido com tantos de nós.

Para quem sabe escutar ou tapar os ouvidos e se amarrar ao mastro – como fez Ulisses na Odisseia épica de Homero – diante dos perigos da sereia – como o filme também sugere – sabe a dimensão de onde nos metemos na forma como lidamos com a natureza, que fez desaguar a pandemia que vivemos hoje. Quem limpará nossa sujeira? Pandemia e pandemônio se dão as mãos nessa ‘folie à deux’. Pois os dois personagens do filme vivem isto: loucura a dois. Em algum momento duvidamos de nossa apreensão da realidade do que é passado no filme: Será que o chefe é uma imaginação ou projeção de Winslow? O medo de enlouquecer está ali. O medo de enlouquecermos diante do desconhecido que a pandemia, o vírus e o isolamento e suas consequências nos trazem, está aqui agora.

Mas é fato que para pensarmos e não sermos tragados pelo mar (do inconsciente, da loucura ou da morte) temos que questionar e lidar com o monstro da autoridade do medo.

Que matéria precária nos prende? E faz temer e tremer? Somos reféns, como os personagens, de espaços abertos que não podemos atravessar. Por que Winslow não se rebela diante de um chefe intransigente e insano, que exige tarefas despropositadas e absurdas? Não é a história de todos nós, de alguma forma, diante de um governo e um país absurdo?

Pior que o medo do desconhecido do vírus, é o medo advindo da repressão que se transforma em opressão, onde os indivíduos e a coletividade desse país em suas diferentes instâncias e instituições (mídias, jurídicas, associações, escolas, etc.) não se rebelam contra um governo fundamentalista e mortífero. Que espécie de pavor é esse??

Temos que roubar as chaves do chefe. Pandemonium.

Pandemonium é uma palavra de origem literária, cunhada pelo poeta inglês John Milton em seu clássico “Paraíso Perdido”, de 1667, “para nomear o centro administrativo do Inferno – não um inferno figurado qualquer, mas o próprio Inferno”. “Formado com elementos importados da Grécia (pan + daimon), mas filtrado pelo latim, Pandemonium era o nome do palácio onde se reuniam todos os demônios sob a liderança de Satã” (fonte: Sérgio Rodrigues, em O Pan e o pandemônio) .

Segundo o escritor Sérgio Rodrigues, “trata-se de uma palavra que, na linguagem corrente, virou um expressivo sinônimo de ‘bagunça, desordem, caos’, mas que numa acepção mais próxima da origem também pode ser empregada com o sentido de ‘associação de pessoas para praticar o mal…’”. Qualquer semelhança com a realidade brasileira é só mera coincidência!

Alguma coisa anima e mantém esse poder do chefe, apesar da evidente ilegitimidade em que ele se coloca. Vivemos em uma sociedade sádica. O masoquista mantém e provoca o sádico. Um não existe sem o outro. Assim como por exemplo em tragédias gregas como a de Édipo Rei (Tirano) de Sófocles, onde essa relação sadomasoquista do povo com os donos do poder é mostrada como uma constante, o Brasil atual renova as dimensões desse fenômeno.

Qual é a parte horrível da vida de um marinheiro, rapaz? É quando o trabalho acaba quando você está entre o vento e a água. Marasmo. Marasmo. Mais cruel que o Diabo. O tédio transforma homens em vilões”. Esse diálogo-monólogo, levado a cabo por Thomas Wake no filme, enquanto toma as bebidas que nos deixam estúpidos, exprime a necessidade humana maníaca (no sentido psiquiátrico do termo – de defesa contra a depressão – ou contra a loucura) pra lidar com a melancolia. Nossas histórias de terror, nossos entretenimentos modernos, nossos filmes e minisséries também são nossas defesas contra a realidade insuportável.

No filme, o antigo guardião da torre fálica do farol morreu. Ficou louco, falando sozinho sobre sereias, seres do mar, maldições e outras coisas. Viu a verdade e não suportou. Alucinou, criou realidades paralelas; Acreditava pois, que havia encanto no farol (farol como uma espécie de sereia fatal). Herdeiros do romantismo, buscam sua salvação.

É má sorte matar uma ave marinha” nos diz o personagem também. Sim. É a nós que ele se dirige! Verdade irrefutável! “Nelas estão as almas dos marinheiros” – e de todos nós.

Lá perto do final do filme, e de nosso fim também, as simetrias são novamente apresentadas, e as assimetrias mais e mais aparecendo num perde e ganha delirante. Matar a gaivota e a natureza é um modo de externar e projetar nosso instinto destrutivo, que na verdade é dirigido contra nós mesmos originalmente (inconscientemente). Em grande parte dos mitos, os deuses castigam os humanos por tentarem em vão alcançá-los. Acho em parte que isso se deve ao fato de não estarmos preparados para tal navegar ainda. É preciso, antes de atingir o divino em nós, nos humanizar, ou então virar bicho. Não há atalhos.

É claustro. Calmaria antes da tempestade. Um vento que estava nos alma-ldiçoando. Não sabemos nada sobre o mar. Não dá para se regozijar na luz com tanta sujeira à mostra. A luz que salva, cega, mata, enlouquece, vira câncer, vira comida de abutre, de vírus.

O isolamento, aqui, como no filme, faz-nos perder a noção de espaço e tempo. Estamos em terra, mas perdidos como eles. A única saída é destruída pelo chefe, e por nós mesmos. “O segredo está lá em cima“! Estar no terreno “seguro” do farol não os tira do lugar de estarem perdidos. Nem os faz seguir viagem seguros e contentes, como os bons marinheiros. “Onde estamos?” Estamos a nos afogar? Homens que viram novamente animais ou nunca deixaram de ser. Este lugar é um chiqueiro. A água invade.

 

“Deixe Netuno acertar você, Winslow.

Escute, Tritão, escute!

Abaixo, ofereça ao nosso pai, o rei do mar,

o subir das profundezas, em sua completa fúria,

ondas negras cheias com espuma e sal,

para sufocar essa boca jovem com lama pungente,

para te sufocar, engordar seus órgãos até você se tornar azul e inchado

com porão e salmoura e não puder mais gritar.

Apenas quando ele, coroado em conchas de berbigão

com a cauda tentadora deslizando e a barba fumegante,

pegar sua queda, braço com barbatana,

seu tridente de coral como banshee na tempestade

e mergulhar através do seu esôfago, estourando você,

não mais uma bexiga abaulada, mas um maldito filme sangrento agora,

e um nada para as Harpias e as almas dos marinheiros mortos

para bicar e arranhar e se alimentar,

apenas para ser rasgado e engolido pelas águas infinitas do temido imperador,

esquecido por todos, em todo lugar, esquecido por qualquer Deus ou diabo,

esquecido até pelo mar, por qualquer coisa

ou parte do Winslow até cada pedacinho de sua alma não ser mais Winslow

mas o próprio mar.”

 

Links e textos/críticas sobre o filme:

https://carmattos.com/2020/01/03/homens-em-busca-da-luz/

https://canaltech.com.br/cinema/critica-o-farol-158536/

http://www.adorocinema.com/filmes/filme-262493/criticas-adorocinema/

 

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* Caio Garrido é psicanalista e escritor. Diretor e criador da Ubuntu Psicanálise, mestrando pelo Programa interdisciplinar em Ciências da Saúde pela Unifesp Baixada Santista. Tem 4 livros publicados (2 romances e 2 de poemas).

Artigo publicado originalmente no perfil do autor.

 

 

O Café com Pepino não endossa, necessariamente, todas as ideias e/ou práticas expressas no presente artigo.

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