Trump e Musk – O declínio do império americano e da democracia liberal

Mas certamente para esta época que prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a fantasia à realidade, a aparência à essência, é esta transformação, exatamente por ser uma desilusão, uma destruição absoluta ou uma pérfida profanação, porque sagrada é somente a ilusão, mas profana a verdade. Sim, esta sacralidade aumenta na mesma proporção em que a verdade diminui e a ilusão aumenta, de forma que o que é o mais alto grau de ilusão é também o mais alto grau de sacralidade. – Ludwig Feuerbach em A essência do cristianismo, ed. Vozes, 2007, p.25.

Na madrugada da última quarta-feira, 06.11.2024, Donald Trump – um criminoso bilionário e famoso por ter participado de um reality show patético – foi extraoficialmente eleito, novamente, para presidente dos Estados Unidos da América. No conservador sistema eleitoral daquele país, um candidato do Partido Republicano voltou a vencer as eleições também no voto popular. O último havia sido George W. Bush, em sua reeleição, após o 11 de setembro de 2001.

Elon Musk cumprimenta Donald Trump em evento oficial de campanha. Imagem: Jim WATSON / 31.out.2024-AFP.

Mesmo sem nutrir qualquer esperança de que um mal menor aconteceria à América Latina – fosse eleita Kamala Harris -, assisti, ainda assim incrédulo, um mitômano golpista, racista e misógino fazendo uma propaganda de outro bilionário – Elon Musk – durante muitos minutos, no microfone em que discursava para o planeta. Naquele palco de extremistas encontravam-se, também, Dana White, dono do UFC , que proferiu algumas palavras aos gritos e Joe Rogan, ex-lutador de MMA, comediante de stand-up e maior podcaster do mundo.

O retorno de Donald Trump à Casa Branca e a indireta coroação de Elon Musk (sim, porque ele acaba de se tornar o ser humano mais poderoso do mundo sem nenhum voto) são uma consequência do declínio do império americano e, concomitantemente, a própria representação dessa derrocada geopolítica. O tempo mostrará se essa eleição também será percebida como um marco da falência da democracia liberal e o início de uma consolidação de autocracias, ditaduras e um totalitarismo do capital tecnológico em escala mundial.

Abaixo, analiso como a eleição de Trump – também pelo voto popular – representa a trajetória desse Titanic na geopolítica, assumindo que o iceberg que leva ao seu consequente naufrágio na própria geopolítica já está bastante visível a você, caro leitor.

Nesse artigo, você lerá:

Capitão Trump e o marujo Musk
Do liberalismo ao ultraliberalismo – o desespero diante do iceberg
A política ultraliberal é o extremismo
O X do problema: a alienação no não-sentido
Capitão Musk e o marujo Trump
Anexo| Editorial Bloomberg – Por que os contribuintes deveriam dar 83 bilhões de dólares por ano aos grandes bancos?

Capitão Trump e o marujo Musk

Donald Trump e Elon Musk são raros vendedores sem escrúpulos, porque, também, megalomaníacos. Ou seja, ambos são salafrários narcisistas e exibicionistas, daqueles que não se escondem após um golpe. Ao contrário, correm para os holofotes. Agora, unidos, como se fossem um Noé vendendo uma arca para as massas do globalismo quando precipita o dilúvio no império.

Trump e Musk não são somente herdeiros de fortunas erguidas da exploração imoral de miseráveis; eles são herdeiros do racismo, da misoginia, do ódio, de crimes e, ainda, usurpadores de dinheiro público. A base dos seus impérios não é o mérito, mas uma herança construída pela amoralidade inerente ao capitalismo, pelo oportunismo e transgressões às próprias regras do inescrupuloso mercado financeiro. Ambos, agora juntos, representam uma só necroliderança a quem resta avançar de forma sádica, violentando quem está abaixo, ou seja, 99% da população mundial.

“Eu sou um grande defensor do livre mercado, e o governo precisa sair do caminho”. Donald, o autor dessa frase, deve sua fortuna à exploração imobiliária do pai, Fred Trump, que construiu prédios populares durante a Segunda Guerra Mundial, em Nova Iorque, com subsídios públicos e práticas discriminatórias. Ao obterem contratos lucrativos com o governo para a construção de moradias estabeleceram um império marcado pelo racismo e por fraudes. Ambos foram processados por barrarem pessoas pretas de alugarem os seus imóveis.

Elon é filho de Errol Musk, negociante de terrenos valorizados na África do Sul durante o apartheid e dono de uma mina de esmeraldas na Zâmbia – território saqueado por interesses estrangeiros. Esse capital familiar financiou Elon. Longe de ser o “self-made” visionário que muitos celebram, ele construiu o seu império com pesados subsídios de dinheiro público. Empresas como Tesla, SpaceX e SolarCity receberam bilhões em apoio governamental, uma contradição gritante para alguém que se diz contra “interferência estatal”.

Imagem autoral do site Café com Pepino, gerada por ‘inteligência’ artificial.

A Tesla já recebeu mais de US$2 bilhões em incentivos fiscais e subsídios para construir suas fábricas e para produzir. Suas empresas prosperaram com o respaldo estatal, em um modelo onde o público assume os riscos, enquanto os lucros vão para o bolso de Musk e seus acionistas. Esse modelo é um exemplo do “capitalismo de compadrio”, onde empresas como as de Musk e Trump se sustentam com dinheiro público enquanto promovem um discurso de “livre mercado”.

De fato, Trump e Musk carregam uma herança de fraudes. Trump ampliou o seu império com práticas imobiliárias predatórias e falências estratégicas, deixando para trás comunidades empobrecidas e burlando a lei para se esquivar de dívidas, sem qualquer remorso aparente. Ainda, a Trump Organization, por exemplo, foi proibida de realizar novos negócios em Nova Iorque. Musk já foi punido por manipulação de mercado com a Tesla, práticas de vendas enganosas, propaganda enganosa e manipulação do mercado de criptomoedas.

Trump profere discursos racistas ao falar de “DNA ruim” de imigrantes e ao chamar mexicanos de “estupradores”, aprofundando divisões e propagando o ódio. Musk, por sua vez, promove contas racistas e neonazistas no X e fomenta o crescimento do discurso de ódio com suas declarações, acobertado pelo falso manto de “liberdade de expressão”, além de promover uma cultura na Tesla em que funcionários pretos já relataram ser chamados de “escravos” e mulheres foram assediadas.

Trump e Musk são mais do que empresários e, agora, escolhidos como comandantes de um império no seu ocaso; eles são símbolos da própria decadência de um sistema que explora, desumaniza e perpetua o racismo e a desigualdade. Ambos se apoiam em práticas que visam à ampliação de suas heranças a partir do Estado, para depois buscarem destruí-lo para reinarem com seus sócios. São aspirantes a ditadores de um regime totalitário onde eles são a lei às custas da vida, da dignidade e da justiça social.

Do liberalismo ao ultraliberalismo – o desespero diante do iceberg

Para os autores clássicos – por exemplo, o contratualista inglês John Locke e o pensador francês Alexis de Tocqueville – entre muitas diferenças, a democracia liberal seria uma estrutura que equilibraria a liberdade individual e o poder político, fundamentada no respeito aos direitos individuais e na proteção contra eventuais abusos do Estado. Tais entendimentos são perfeitamente compreensíveis quando levamos em conta que eles foram aristocratas que viveram nos séculos XVII e XIX, respectivamente; separados, em suas análises, pelos impactos da Revolução Francesa.

Suposto iceberg que afundou o Titanic, fotografado pelo chefe de serviço do navio SMS Prinz Adalbert /Crédito: Wikimedia Commons

Já os pensadores contemporâneos da teoria crítica – como o alemão Jürgen Habermas e a norte-americana Nancy Fraser – complexificam essa visão essencialista da democracia liberal, destacando os seus limites nos desafios associados à desigualdade econômica, à necessária proteção ao pluralismo cultural e à prevalência do neoliberalismo a partir dos anos 1980, com a consolidação do globalismo. No debate público do primeiro quarto desse século XXI até a grande crise do capital de 2007-8, parecia inquestionável a necessidade de uma democracia efetiva que não só deveria proteger as liberdades individuais, mas que também respondesse às demandas crescentes por justiça social e por uma real inclusão de bilhões de pessoas abandonadas pelo capitalismo.

No entanto, desde então, grandes agentes do capital – em seu inerente aprofundamento das contradições que gera – não retrocederam diante dos limites ou buscaram dirimir os efeitos desumanos do neoliberalismo. Valendo-se do ecossistema das redes sociais virtuais, fabricados pelas Big Tech, eles promoveram a alavancagem – um investimento sem lastro, mas aqui pode ser compreendido como um investimento naquilo que não possui lastro na realidade – do discurso de expoentes de um pensamento mítico do liberalismo, muito mais próximos do misticismo do que das bases de sua própria doutrina original: os ultraliberais.

O ultraliberalismo é a radicalização do neoliberalismo, o avanço amoral do capital sobre a esfera pública, a tomada explícita do Estado para os seus interesses. Ele é uma força que distorce o sentido de liberdade e autonomia – esvaziando o espaço público e a solidariedade social – ao impor políticas econômicas para si em detrimento de políticas sociais de redistribuição e acesso às riquezas. Ele criou uma cultura violenta de competição extrema e do individualismo exacerbado, na qual os riscos e as perdas são de todos, menos daqueles que a modelam. Aliás, seus agentes não correm risco algum, porque esse sempre é assumido pelo Estado e pelos contribuintes.

A política ultraliberal é o extremismo

Para imporem tamanha violência contra os interesses e demandas vitais de bilhões de pessoas, tais agentes e ideólogos precisam, necessariamente, de figuras públicas com aspirações messiânicas, místicas e totalitárias. Aqueles que encarnam o valor do individualismo, enquanto concentram o poder decisório que deveria ser regido pelas instituições democráticas.

Nesse sentido, a primeira vitória do extremismo econômico e político nas democracias liberais foi o deslocamento do debate público, a partir de um ataque simbólico massivo àquilo que era consensual, pactuado e sobre o qual não havia discussão alguma. Incluso o eixo do conhecimento acumulado pela espécie humana ao longo da sua história e da sua sobrevivência. Isso é o negacionismo.

No entanto, para deslocar o debate público não é necessário adentrá-lo com argumentos, teses, expressões artísticas ou raciocínios sofisticados. Não é preciso demonstrar nenhuma construção ou pensamento. Basta deslocar o meio onde ele acontece.

Logotipo do extinto programa argentino ‘CQC’, que foi transmitido no Brasil de 2008 a 2015, pela TV Bandeirantes. Ele e o programa da socialite Luciana Gimenez, na TV Gazeta, popularizaram a figura grotesca de Jair Bolsonaro.

No Brasil, por exemplo, posso afirmar que esse ataque inicial do ultraliberalismo partiu da deep web, através do finado astrólogo e maníaco Olavo de Carvalho, que formou gerações de “influencers” que jamais haviam aberto um livro na vida, mas que hoje possuem milhões de seguidores e doutrinaram outros milhares de “influencers”.

Olavo foi um farsante chulo travestido de ideólogo messiânico autoexilado na Virgínia, que atuou dos Estados Unidos – desde o início dos anos 2000 – para desestabilizar o país; como tantas outras figuras tropicais que sempre encontraram amparo, apoio e incentivo no império, sobretudo, na Flórida. Entre delírios e palavrões, o discurso do astrólogo era o de um ressentido para ressentidos, sobretudo jovens. Assim, sua influência foi financiada e amplificada no Brasil após a internalização – à força – da crise de 2007-8, em 2013. Naquele ano, as bases do neofascismo brasileiro já estavam semeadas há muito tempo e apenas frutificaram aos pés do ultraliberalismo, como um escudo materializado, em um primeiro momento, no Movimento Brasil Livre – MBL (sic).

Porém, ao ultraliberalismo não basta acusar de doutrinador um intelectual do porte de Paulo Freire, enquanto ele próprio doutrina crianças e jovens com o jogo Banco Imobiliário, filmes, desenhos ou compra alguns servidores de carreira pública, como juízes, promotores, policiais ou escolhe diretores de bancos centrais e ministros da fazenda. Agora, ele precisa adentrar no Estado com alguma legitimidade popular tanto para atuar sem amarras em seu benefício, quanto para controlar o monopólio da violência sem limites legais, contra a própria população. Nos legislativos, esse nunca foi um problema, já que vereadores, deputados e senadores podem, facilmente, ser fabricados pelo dinheiro. O próprio, nos casos dos grandes empresários e fazendeiros, ou o de outrem (não todos os políticos, evidentemente).

A questão é que chefes do executivo federal são figuras altamente expostas e ficam à mercê do escrutínio público na sociedade do espetáculo. Fabricá-los não basta mais, eles precisam ter uma liderança carismática e popular, como demonstraram Max Weber, na teoria, e José Serra, na prática.

Na simbiose entre o capital e o fascismo, a estratégia de promover figuras midiáticas às presidências mundo afora tornou-se muito mais fácil após a era Ronald Reagan – ator de Hollywood, republicano, 40º presidente dos Estados Unidos e pai político do neoliberalismo (a mãe foi a primeira ministra inglesa, Margareth Tatcher, conhecida como a “Dama de Ferro”).

Desde então, para ficarmos em alguns exemplos, tivemos o Terminator e republicano Arnold Schwarzenegger, como governador da Califórnia, o humorista Volodymyr Zelensky, eleito presidente da Ucrânia após um golpe promovido pelos Estados Unidos. Temos, ainda, um político brasileiro fascista, expulso das FFAA, com três décadas de carreira anônima no esgoto do Congresso, mas que foi alçado à popularidade pela mídia brasileira – ávida pelo grotesco e por audiência – para, depois de mais um golpe promovido pelos Estados Unidos, ser lapidado pelo capital nas redes sociais virtuais, como o novo presidente da República Federativa do Brasil.

O fato inexorável é que um perfil de líder carismático tornou-se cada vez mais essencial aos interesses do capital na sociedade de consumo e do espetáculo. Até ao ponto em que o líder não é mais, somente, um fantoche; ele é a personificação que coincide com o – outrora anônimo – interesse do ultraliberalismo. Esse é Donald Trump, que não seria presidente novamente sem Elon Musk. Momentaneamente faces da mesma moeda, sócios em um empreendimento, numa necroliderança movida à pulsão de morte, exatamente para que ambos possam continuar lucrando e dando vazão à megalomania. Porque, para tanto, agora precisam destruir a democracia, as esferas públicas e os interesses populares, custe o que custar – ‘CQC’, diria Javier Milei na TV argentina, onde se tornou popular.

A propósito, não seria um disparate intuirmos que Javier Milei é um balão de ensaio do ultraliberalismo a ser adotado por Trump. Algo que o binômio Paulo Guedes – Bolsonaro tentou, mas não conseguiu. Assim como o ditador Augusto Pinochet foi o vetor do neoliberalismo que testou a doutrina do choque da escola de Chicago, que posteriormente foi implementada por Reagan e Tatcher e imposta ao restante do mundo, com a queda do muro de Berlim.

O X do problema: a alienação no não-sentido

Assim, o debate público foi deslocado – de questões sobre como reverter e superar os limites e as contradições do neoliberalismo – por uma ruptura com o eixo estabilizador dos discursos em torno de pressupostos básicos da cultura ocidental. Nesse sentido, as novas linguagens hiperestimuladas pelos algoritmos das Big Tech (que impactaram diretamente as TVs) se tornam chave para compreendermos como deixamos de discutir a política, para ter que defendê-la – enquanto único meio possível de convivência – diante de tantos defensores de golpes militares e torturadores.

Mais, ao invés de as redes se transformarem em poderosos espaços para a população pressionar os rumos das políticas social, econômica e monetária, passamos a ter que defender que vacinas são um avanço da ciência e que a Terra não é plana. Isso revela como o grotesco e o absurdo foi instaurado enquanto uma estratégia – que envolve o uso tático de bombas semióticas e a disseminação massiva de mentiras – do ultraliberalismo. Quanto maior for o absurdo, a atrocidade, a mentira e a violência simbólica que tais dispositivos perpetram, maior o alcance e visibilidade eles terão no ecossistema das redes sociais virtuais.

Por isso, os agentes do binômio ultraliberalismo-fascismo se vendem como “antissistema”, porque eles são, antes de mais nada, meios daquilo que era o inaceitável à cultura e à mínima civilidade no capitalismo pré-crise. Habitando os dois polos do binômio que representam, de fato, eles são um concentrado de tudo o que anteriormente havia de podre no neoliberalismo – suas patologias socioeconômicas.

Tudo isso, claro, com o objetivo de controlar o destino material da massa de seres humanos que representa 99% da população mundial e detém somente 1/3 da riqueza.

Ampliando o caráter e o papel da alienação na obra de Karl Marx, o absurdo que norteia o debate público contemporâneo – e o não-sentido, em um segundo momento – extrapola a dimensão de uma desconexão do trabalhador com a sua própria natureza social, econômica e política. O alienado pelas redes sociais virtuais é praticamente imune àquilo que o filósofo prussiano da economia política chamou de consciência de classe. Porque tal alienação é, antes, um meio de reconexão com a sua natureza primitiva, bárbara. Ela opera como uma libertação do neurótico através de uma psicotização sociopolítica.

O não-sentido – pensado e posto em pratica racionalmente pelos agentes do ultraliberalismo – libertou à força o reprimido em largas fatias das massas. Especialmente naquele indivíduo desejante e ressentido pelas promessas não entregues pela sociedade de consumo e pela democracia liberal, cuja maior manifestação é o império dos Estados Unidos da América, anteparo maior e, até aqui, o organizador dos interesses do capital.

Naqueles em que essa nova forma de alienação é bem sucedida, nada resta de potencial criador da transformação, senão a sua perpetuação alienada na efeméride consumista. Seja ao trabalhador comum, ao desempregado, ao precarizado, ao terceirizado e aos uberizados sem garantia social alguma. Porque não lhes foi deixada margem à elaboração crítica, um mínimo espaço lógico para a mobilização da sua consciência coletiva; somente lhes é ofertada a dissipação da sua energia direcionada aos objetos especificamente apontados na cultura de massas. O consumo, o ódio, o gozo, a morte.

No entanto, diferentemente dos objetos de consumo, os objetos apontados ao ódio não são aqueles representados pelos agentes ultraliberais, mas aqueles tantos nos quais ainda reside alguma energia potencial, não esvaziada, não instrumentalizada por completo. Aqueles cada vez mais fundamentais que carregam um vir-a-ser força transformadora que engendra um verdadeiro nexo coletivo e popular.

Capitão Musk e o marujo Trump

Na primeira seção desse artigo, me detive por algum tempo refletindo se a intitularia Capitão Trump e o marujo Musk ou Capitão Musk e o marujo Trump. Até o momento em que realizei o óbvio: não importa, porque tratamos da representação de um só algo – um grande algo – que está em declínio, o qual é representado por ambos, isoladamente ou somados.

Imagem autoral do site Café com Pepino, gerada por ‘inteligência’ artificial.

Ainda assim, precisamos distinguir os agentes do ultraliberalismo que dele se beneficiam, daqueles que reproduzem inconscientemente o campo simbólico e os interesses dos primeiros. Os agentes, de fato, referem-se, predominantemente, ao espectro em torno do 1% da população mundial que detém 2/3 da riqueza. Já aqueles que reproduzem tais interesses são muitos e cada vez mais numerosos nas massas.

Porém, não há, entre o 99%, uma só ideologia organizada ou visão de mundo estruturante de um determinado grupo que seja mecanicamente aderente a tais interesses.

De tal forma, se podemos facilmente notar discursos instrumentalizados pelo ultraliberalismo na fonte do pensamento místico – portanto, aquela dos fundamentalistas religiosos, membros de seitas e afeitos às teorias da conspiração -, não poderíamos deixar de atestar que tal serventia também brota do cientificismo estéril que busca, em contrapartida, legitimar somente aquilo que é possível de ser visto em um microscópio.

Os exemplos de pares de opostos poderiam ser muitos, desde que compreendamos que eles não mais se opõem em uma disputa por sentidos, mas se complementam nessa nova etapa de um capitalismo hipertecnológico e extremo. Em uma sociedade imagética, a psicotização sociopolítica soergue da radicalização-do-discurso-oposto em função da sua forma, da sua performance e da sua estética, não do seu conteúdo.

No espaço virtual dos algoritmos das Big Tech, a atuação (performance) calcada na estridência e na contundência aumentam a audiência, independentemente de noções e valores associados a um sentido público, ético, moral ou sociopolítico. Precisamente, porque tais gritos de ‘certeza’ oferecem uma boia de sobrevivência simbólica e de gozo ao sujeito entrópico, cuja gênese propus no ensaio O sujeito entrópicoUm ensaio sobre redes sociais, estrutura, reconhecimento e consumismo.

Assim, rompendo a pedra fundamental da filosofia grega – o método socrático – reinam o absurdo e o não-sentido na ágora (ἀγορά) contemporânea. O absurdo diz da nossa defesa psíquica, enquanto o não-sentido diz do nosso desejo. Ambos, nos tempos atuais, propiciam a ascensão política de representantes do ultraliberalismo-fascismo com apoio popular, como podemos notar no Brasil, com a eleição de inúmeros influenciadores digitais – muito além do bolsonarismo – e, também, com os representantes máximos dessa estratégia do capital: Donald Trump e Elon Musk.


Anexo ilustrativo | Editorial da revista norte-americana, sobre o mercado financeiro, Bloomberg News, em 20 de fevereiro de 2013.

Por que os contribuintes deveriam dar 83 bilhões de dólares por ano aos grandes bancos?

Na televisão, em entrevistas e reuniões com investidores, executivos dos maiores bancos dos EUA – especialmente o CEO do JPMorgan Chase & Co., Jamie Dimon – defendem que o tamanho é uma vantagem competitiva. Eles argumentam que ser grande os ajuda a reduzir custos e a competir por clientes em escala internacional. Limitar esse tamanho, alertam, prejudicaria a lucratividade e enfraqueceria a posição do país nas finanças globais. E se disséssemos que, segundo nossos cálculos, os maiores bancos dos EUA não são realmente lucrativos? E se os bilhões de dólares que alegadamente geram para seus acionistas fossem quase totalmente um presente dos contribuintes americanos? Certo, é um conceito difícil de aceitar. Mas é crucial para entender por que os grandes bancos representam uma ameaça tão grande à economia global.

Comecemos com um pouco de contexto. Os bancos têm um forte incentivo para crescer e se tornar desajeitadamente grandes. Quanto maiores, mais desastrosa seria sua falência e mais certa a possibilidade de um resgate governamental em uma emergência. O resultado é um subsídio implícito: os bancos potencialmente mais perigosos conseguem empréstimos a taxas mais baixas, pois os credores os percebem como “grandes demais para falir”. Recentemente, economistas tentaram calcular exatamente quanto esse subsídio reduz os custos de financiamento dos grandes bancos. Em um esforço relativamente abrangente, dois pesquisadores – Kenichi Ueda, do Fundo Monetário Internacional, e Beatrice Weder di Mauro, da Universidade de Mainz – estimaram que essa redução seja de cerca de 0,8 ponto percentual. O desconto se aplica a todas as suas obrigações, incluindo títulos e depósitos de clientes.

Pequeno, mas Impactante

Pode parecer pouco, mas uma diferença de 0,8 ponto percentual faz uma enorme diferença. Multiplicada pelo total das obrigações dos 10 maiores bancos dos EUA em ativos, equivale a um subsídio dos contribuintes de 83 bilhões de dólares por ano. Para contextualizar, é como se o governo desse aos bancos cerca de 3 centavos de cada dólar arrecadado em impostos. Os cinco maiores bancos – JPMorgan, Bank of America Corp., Citigroup Inc., Wells Fargo & Co. e Goldman Sachs Group Inc. – representam 64 bilhões desse total, um valor aproximadamente igual aos seus lucros anuais típicos. Em outras palavras, os bancos que dominam o setor financeiro dos EUA – com quase 9 trilhões de dólares em ativos, mais da metade do tamanho da economia americana – apenas se equilibrariam sem esse “bem-estar corporativo”. Em grande parte, os lucros que relatam são essencialmente transferências dos contribuintes para seus acionistas.

Nem os executivos dos bancos nem os acionistas têm muitos incentivos para mudar essa situação. Pelo contrário, a indústria financeira gasta centenas de milhões de dólares em cada ciclo eleitoral com doações de campanha e lobby, grande parte destinado a manter o subsídio. O resultado é um setor financeiro inchado e ciclos recorrentes de crédito excessivo. Se nada for feito, os super-bancos podem eventualmente exigir resgates que excedam os recursos do governo. Imagine um colapso em que o Tesouro esteja impotente para agir como fez em 2008 e 2009.

Os reguladores podem mudar esse jogo reduzindo o subsídio. Uma opção é exigir que os bancos financiem suas atividades com mais capital dos acionistas, o que os tornaria menos propensos a precisar de resgates (sugerimos 1 dólar de capital para cada 5 dólares de ativos, muito mais do que a proporção de 1 para 33 exigida pelas novas regras globais). Outra ideia é chocar os credores, fazendo com que alguns deles assumam perdas quando os bancos enfrentarem problemas. Uma terceira opção é impedir que os bancos usem o subsídio para financiar operações especulativas, o objetivo da regra Volcker nos EUA e da separação bancária no Reino Unido.

Uma vez que os acionistas compreendam totalmente o quão mal os maiores bancos operam sem o apoio do governo, eles se veriam motivados a exigir melhorias. Isso poderia incluir desde a redução dos pacotes de pagamento até o desmembramento de gigantes financeiros em unidades mais gerenciáveis. A disciplina de mercado pode não agradar aos executivos, mas certamente seria uma melhora em relação a pagar bancos para nos colocar em perigo.

 

A psicanálise é uma ciência

Publico o presente artigo, mesmo considerando a última versão brasileira desse enfadonho debate centenário encerrada, porque, ao me reaproximar das redes, pude ler muitos jovens defensores dessa tese superada tantas vezes, de que a psicanálise não seria uma ciência, reproduzindo-a nos últimos dias, sem terem o mínimo preparo essencial à qualquer crítica pertinente e necessária à psicanálise, como tantas outras.

No ensaio O Sujeito Entrópico – Um ensaio sobre redes sociais, estrutura, reconhecimento e consumismo (2022), fiz um brevíssimo debate epistemológico ao citar o saudoso professor Octavio Ianni, introduzindo sua vasta obra sobre o globalismo. Nela, ele disseca os impactos da transformações nas metodologias das ciências humanas e os seus potenciais desdobramentos ao longo dos anos 1990 e do início do século XXI.

Para ele, três abordagens se destacavam no rol de análises do novo fenômeno da globalização, por serem metateorias capazes de articularem noções locais e globais:

– a sistêmica, adotada tanto na academia quanto nos órgãos governamentais, empresas transnacionais e think tanks. Ela é funcionalista e sincrônica, compreendendo o globalismo como um organismo autorregulado e a-histórico, que tende ao equilíbrio;

– a weberiana, em sua análise social da ética protestante e outros conceitos relativos ao nexo entre o indivíduo e a sociedade. Porém, fundamentalmente, quanto ao seu aprofundamento no estudo daquilo que Weber chamou de dominação racional, dominação legal e dominação burocrática;

– e, por fim, a marxista, em sua abordagem dialética e materialista acerca do dinamismo do capital e dos modos de produção ao longo da história.

Defendo a tese de que, após a queda do Muro de Berlim – hoje é evidente -, a primeira metateoria prevaleceu. Muito além de prevalências teóricas, a hegemonia da metateoria sistêmica aponta como a leitura positivista e, principalmente, cientificista do funcionalismo voltou a condensar nas ciências humanas a partir daqueles anos de 1990, após uma breve pulverização nas décadas anteriores – pós-estruturalismo, contracultura, etc.

Portrait of Sigmund Freud(Freud, Sigmund.) Sternberger, Marcel Edité par London, 1938, printed 2017, 1938

Portrait of Sigmund Freud. Sternberger, Marcel. Edité par London, 1938, printed 2017.

Ainda, que a massificação da internet e das redes sociais virtuais, após a crise neoliberal de 2007-8, em sua estrutura racionalizável e necessária à rearticulação dos interesses do capital, engendrou e propiciou o negacionismo/extremismo que explodiu na cara de todos nos últimos anos.

Tais interesses, necessitando ressignificar estruturantes fraudes e mentiras, contudo, ao mesmo tempo, sabendo que o planeta Terra é um geóide (porque precisam ficar vivos), propiciaram o espaço para que as noções do cientificismo reassumissem um radicalismo em resposta ao charlatanismo crescente e avassalador em todos os campos do conhecimento.

Ou seja, a fenda global provocada pelo descontrole do capitalismo foi tão profunda que o capital, enquanto medida de sua sobrevivência, invocou tanto a mentira extrema – o ataque massivo à necessária ciência, às figuras de autoridade, ao senso comum, às instituições da democracia liberal -, quanto o cientificismo radical.

A microbiologista Natália Pasternak ficou ‘famosa’ no Brasil a partir desse lugar de contradição inflamada dos interesses do capital, atuando de forma exemplar na CPI da Covid, contra o negacionismo bolsonarista. Ela enfrentou o extremismo psicótico à altura, com uma coragem vital a todos os que aguardamos o julgamento dos envolvidos no genocídio ao qual sobrevivemos – ao mesmo tempo tão vivo em nossas memórias e, de forma revoltante, tão morto no debate público nos últimos dois anos.

Não posso afirmar que o ‘sucesso’ por defender o óbvio subiu à cabeça de Pasternak, mas a sua postura assertiva e ‘lacradora’ – fundamental naquele momento – parece ter expandido para – ou, talvez, tenha sido derivada – (d)o espaço de condensação de um neopositivismo arrogante e agressivo, que aparentemente pretende ser, além de um valoroso defensor da ciência, uma suposta superação das conjunturas e marcadores científicos socioculturais, históricos e políticos contemporâneos, aspirando a um assustador caráter de neutralidade divina, pureza e superioridade moral.

Uma expressão atual de uma arcaica posição, superada diversas vezes no curso da filosofia da ciência, mas bastante popular na linguagem contemporânea e hiperestimula na estética de consumo nas redes sociais virtuais. Discurso recursivo ao cientificismo dos herdeiros de Karl Popper e da escola de Chicago, corrente filosófica que valeu-se de psicologizações necessárias às suas teorias econômicas implantadas pelas ditaduras impostas na América Latina pelos governos dos EUA, ao longo do século XX.

Pasternak, pesquisadora da Universidade de Columbia, e o seu marido, o jornalista Carlos Orsi, publicaram um livro chamado Que bobagem!: pseudociências e outros absurdos que não merecem ser levados a sério (2023), no qual destinam 20 páginas para tentarem caracterizar a psicanálise enquanto uma pseudociência, a equiparando, por exemplo, à paranormalidade, discos voadores, curas energéticas, modismos de dieta e poder quântico.

Uma prova elegante de que a Psicanálise é uma ciência

No livro Ciência Pouca é Bobagem: Por que Psicanálise Não é Pseudociência (2023), de Christian Dunker e Gilson Iannini, temos uma resposta formal e específica ao livro de Pasternak e Orsi.

Entretanto, eles não defendem a cientificidade da psicanálise partindo somente dos conceitos próprios à epistemologia da psicanálise (em sua própria linguagem), eles assumem um viés de escuta que se propõe a dialogar na própria arena dos autores, de uma suposta ciência única. Dunker e Ianinni seguem através da filosofia da ciência por todo o livro, desmascarando – palavras minhas- o oportunismo mercadológico dos autores de Que Bobagem!… propiciado por um espaço midiático fabricado pelos interesses dominantes na atual conjuntura brasileira para cientificistas como eles.

Um dos conceitos centrais abordados no livro Ciência Pouca é Bobagem é o de “extimidade”, termo lacaniano que se refere a algo que está simultaneamente “dentro” e “fora”. Para Dunker e Iannini, a psicanálise ocupa uma posição “extima” em relação à ciência: ela faz parte do campo científico, mas sem se adequar completamente aos métodos e critérios que prevalecem nas ciências naturais. Essa posição permite à psicanálise investigar fenômenos singulares — como o inconsciente, os sonhos e os sintomas — que não se prestam à replicação e à generalização.

Essa “ciência extima” da psicanálise é o oposto do dogma e do empirismo rígido, pois trata o singular como algo de valor epistemológico. Ao contrário de outras abordagens, a psicanálise lida com aquilo que é “externo” ao método experimental, mas que, ao mesmo tempo, é parte inseparável da experiência humana. Os autores acertam ao desafiar a ideia de que toda ciência precisa seguir um molde específico de objetividade; ao contrário, mostram que o saber científico pode e deve acomodar diferentes formas de verdade.

Dunker e Iannini também enfrentam diretamente o argumento da falseabilidade de Karl Popper, frequentemente usado para excluir a psicanálise do campo científico. Para Popper, uma teoria é científica apenas se puder ser provada falsa por experimentação; entretanto, os autores desconstroem essa ideia ao apontar suas limitações para saberes que não podem ser reduzidos a simples afirmações verdadeiras ou falsas. A psicanálise, ao lidar com processos subjetivos e experiências únicas, não se enquadra na mesma categoria de teorias que buscam estabelecer leis universais.

A obra também é enriquecida pela interlocução com autores como Thomas Kuhn e Gaston Bachelard, que contribuíram para a ideia de uma ciência pluralista e capaz de dialogar com diferentes paradigmas. Kuhn, com seu conceito de paradigma científico, ajuda a fundamentar a defesa dos autores contra o cientificismo, ao demonstrar que a ciência se desenvolve através de crises e mudanças de perspectiva. Bachelard, por sua vez, enfatiza o papel da interpretação e da construção do conhecimento, o que abre espaço para que abordagens como a psicanálise sejam compreendidas como parte legítima da investigação científica.

Dunker e Iannini destacam que o verdadeiro saber científico não é monolítico, mas plural, interativo e crítico. Eles afirmam que, ao tentar impor um único critério de validação, o cientificismo falha em reconhecer as potencialidades da psicanálise para expandir a compreensão dos fenômenos humanos. A ciência, argumentam, deve ser aberta e permeável, abraçando a complexidade em vez de rejeitá-la.

Um dos temas mais provocantes do livro é a defesa do que Dunker e Iannini chamam de “saber da bobagem”. Ao contrário do cientificismo, que desqualifica o que parece trivial ou sem valor, a psicanálise dedica-se a explorar justamente esses elementos: os sonhos, as obsessões e as pequenas incoerências que, na superfície, podem parecer irrelevantes, mas que revelam o funcionamento profundo do inconsciente. A análise do caso do Pequeno Hans, clássico na obra de Freud, ilustra como essas “bobagens” revelam complexas estruturas de desejo e angústia.

Aqui, a psicanálise mostra seu valor como uma ciência que não apenas interpreta, mas também emancipa o sujeito, possibilitando uma transformação profunda da relação com seu inconsciente. Ao contrário da postura cientificista, que nega valor ao que não se pode medir ou replicar, a psicanálise lida com a singularidade de cada indivíduo, proporcionando uma abordagem verdadeiramente humanista. A ciência, segundo Dunker e Iannini, precisa ser capaz de lidar com o trivial e com o particular, pois é aí que reside uma verdade essencial sobre o sujeito.

As ‘hard sciences’ – as ciências de laboratório – também comprovam que a Psicanálise é uma ciência

Há mais de um século, Freud propôs que memórias indesejadas podem ser excluídas da consciência, um processo chamado repressão. Não se sabe, porém, como a repressão ocorre no cérebro. Usamos ressonância magnética funcional para identificar os sistemas neurais envolvidos em manter memórias indesejadas fora do alcance conhecimento. O controle de memórias indesejadas foi associado ao aumento da ativação pré-frontal dorsolateral, redução da ativação do hipocampo e retenção prejudicada dessas memórias. Ambas as ativações corticais pré-frontais e do hipocampo direito previram a magnitude do esquecimento. Esses resultados confirmam a existência de um processo de esquecimento ativo e estabelecem um modelo neurobiológico para orientar a investigação sobre o esquecimento motivado.

Acima, temos o resumo do artigo Sistemas Neurais Subjacentes à Supressão de Memórias Indesejadas (2004), de Michael C. Anderson et al., publicado na revista Science, que explora mecanismos neurológicos que atuam na supressão ativa de memórias, especialmente as de natureza traumática ou indesejada. Através de experimentos neurocientíficos, Anderson analisa como o córtex pré-frontal, em interação com o hipocampo, desempenha um papel central na capacidade de “bloquear” memórias incômodas, uma função crucial para o equilíbrio emocional e a saúde mental.

O estudo foca no uso da paradigma think/no-think (TNT), onde indivíduos treinados a suprimir memórias específicas mostram atividade reduzida no hipocampo e uma maior ativação no córtex pré-frontal quando conseguem suprimir uma recordação indesejada. Esse processo é discutido por Anderson sob a ótica de modelos cognitivos e freudianos de repressão, posicionando a pesquisa como uma evidência neurológica para processos psicanalíticos clássicos. O estudo propõe ainda que a supressão ativa de memórias pode atuar como um meio de autorregulação emocional, contribuindo para a manutenção da estabilidade psíquica.

Na complexa relação entre memória e trauma, Anderson discute como esse mecanismo pode ter efeitos tanto benéficos quanto danosos, dependendo da frequência e intensidade da supressão. Essa capacidade, uma vez desregulada, pode resultar em quadros de ansiedade ou distúrbios dissociativos, onde a tentativa de bloquear memórias traumáticas paradoxalmente amplifica seu impacto. Em última análise, o artigo sugere que a memória não é simplesmente um processo de armazenamento passivo, mas um campo dinâmico e maleável, influenciado por redes neurais que filtram, ajustam e até eliminam informações em resposta a demandas emocionais e sociais.

Já o artigo Transtorno de pensamento medido como estrutura de fala aleatória classifica sintomas negativos e diagnóstico de esquizofrenia com 6 meses de antecedência (2017), de Sidarta Ribeiro, Natália Mota e Mauro Copelli, publicado na Schizophrenia, revista da Nature voltada à psiquiatria, investiga a desorganização do pensamento como um marcador precoce de esquizofrenia. A hipótese central é que uma baixa conectividade de fala — observável desde o primeiro contato clínico — pode prever sintomas negativos e um diagnóstico de esquizofrenia até seis meses antes.

Comprovando os achados iniciais de Freud, o estudo utiliza relatos de sonhos como fonte principal para medir e analisar a desorganização do pensamento, focando especificamente na estrutura aleatória do discurso dos pacientes. Através da análise de grafos, os autores investigam a conectividade das palavras em narrativas de sonhos, revelando que, em casos de psicose recente e esquizofrenia, a estrutura do discurso tende a ser mais desconexa e aleatória. Essa escolha dos sonhos como material clínico é significativa, pois permite captar conteúdos subjetivos e desorganizados de maneira natural, ajudando a detectar sinais de distúrbios de pensamento. Conteúdos oriundos do Inconsciente.

Por fim, a História

Existem muitos outros estudos, artigos e livros, publicados na Science, na Nature, em diversas revistas científicas de prestígio e por diversas editoras ao longo de décadas que comprovam que a Psicanálise é, sim, uma ciência. Ela só não é uma pseudociência, nem um dos charlatanismos propiciados pelas redes sociais virtuais das Big Tech, nem, talvez, uma das ciências interessantes a muitos interesses poderosos na atual conjuntura socioeconômica, histórica e geopolítica.

Aliás, na contemporaneidade, devastada pela mentira, torna-se imperativo rememorarmos quando Freud precisou fugir para Londres, em 1938, devido à ascensão do nazismo. Aquela ideologia nefasta que divulgava uma interpretação selvagem da mitologia nórdica, um tipo de esoterismo e, ao mesmo tempo, um cientificismo barato. Combinação que custou ao mundo a Segunda Guerra Mundial.

Referências:

ANDERSON, Michael C.; OCHSNER, Kevin N.; KUHL, Brice; COOPER, Jeffrey; ROBERTSON, Elaine; GABRIELI, Susan W.; GLOVER, Gary H.; GABRIEL, John D. E.; GABRIELI, D. E. Neural systems underlying the suppression of unwanted memories. Science, v. 303, n. 5655, p. 232-235, 2004. Disponível em https://www.science.org/doi/10.1126/science.1089504. Acesso em: 25/10/2024.

DUNKER, Christian; IANNINI, Gilson. Ciência pouca é bobagem: por que psicanálise não é pseudociência. Prefácio de Tatiana Roque. São Paulo: Ubu, 2023. 288 p.

MOTA, N. B.; COPELLI, M.; RIBEIRO, S. Thought disorder measured as random speech structure classifies negative symptoms and schizophrenia diagnosis 6 months in advance. npj Schizophrenia, v. 3, n. 18, 2017. Nature. Disponível em: https://doi.org/10.1038/s41537-017-0019-3. Acesso em: 25/10/2024.

ORSI, Carlos. Carlos Orsi, coautor de “Que bobagem!”, debate com o psicanalista Mário Eduardo Costa Pereira. TV Unicamp. YouTube, 23 out. 2024. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=eHmn2zcjyZc. Acesso em: 23 out. 2024.

PASTERNAK, Natalia; ORSI, Carlos. Que bobagem! Pseudociências e outros absurdos que não merecem ser levados a sério. São Paulo: Contexto, 2023. 336 p.

ZUCCOLOTTO, Fábio C. O sujeito entrópico – um ensaio sobre redes sociais, estrutura, reconhecimento e consumismo. In: GARRIDO, Caio; ZUCCOLOTTO, Fábio C. A nova era tecnológica: redes sociais, realidade virtual e inteligência artificial: um olhar psicanalítico e social. 1. ed. Belo Horizonte: Editora Letramento, 2022. p. 71-128.

Resenha | Cartas a um Jovem Terapeuta, de Contardo Calligaris

No seminal ensaio A Eficácia Simbólica, parte da obra Antropologia Estrutural (1958), Claude Lévi-Strauss traça um paralelo profundo entre o método freudiano e as práticas xamânicas. Ele argumenta que tanto o psicanalista quanto o xamã atuam como intermediários que utilizam símbolos e narrativas para reorganizar a experiência subjetiva do indivíduo, promovendo a cura. Lévi-Strauss revela que a eficácia de ambos os métodos reside no poder do símbolo em alterar a percepção da realidade interna, evidenciando que as estruturas mentais humanas compartilham semelhanças fundamentais, independentemente do contexto cultural.

Em sua obra Cartas a um jovem terapeuta, Contardo Calligaris nos presenteia com uma reflexão profunda e ao mesmo tempo acessível sobre os labirintos do ofício terapêutico. Endereçada não só aos aspirantes, mas também aos curiosos e profissionais que buscam um olhar crítico sobre a sua prática, o livro se desenrola como uma coleção de cartas que, tal qual confidências entre amigos, nos envolvem em um diálogo íntimo e provocativo.

Afastando-se da tese de Lévi-Strauss, desde as primeiras páginas, Calligaris se empenha em desconstruir a figura quase mítica do terapeuta como um “curador mágico” dos males da alma. Em vez disso, ele nos convida a enxergar o terapeuta como alguém que caminha ao lado do paciente, sem pretensões de superioridade ou infalibilidade. O autor propõe uma postura mais humilde e autocrítica, onde o sucesso terapêutico não se mede pelo aplauso ou reconhecimento, mas pela capacidade de ser o “remédio” que, cumprida sua função, pode ser esquecido sem pesar. Essa ideia de distanciamento ideal entre terapeuta e paciente ecoa a ética psicanalítica, mas também desnuda as armadilhas emocionais e narcísicas que espreitam na profissão.

Um dos grandes méritos da obra é a crítica afiada ao culto à personalidade que permeia o mundo da psicanálise. Calligaris não poupa ironias ao descrever os “chefes de escola”, profissionais que, sedentos por admiração, acabam por transformar o vínculo terapêutico em uma teia de dependências. Em vez de libertar, perpetuam “curas” eternas, aprisionando “discípulos” e pacientes em uma forma de submissão psíquica. Suas palavras são como um espelho que reflete não só as vaidades alheias, mas também nos convida a examinar as nossas próprias, psicanalistas ou não.

O texto ilumina com precisão cirúrgica o perigo das idealizações mútuas. O amor de transferência, esse fenômeno tão fundamental quanto delicado no processo de cura, é analisado com rigor. Calligaris nos alerta sobre a linha tênue que separa a utilização ética desse amor para o crescimento do paciente e a sedução pelo papel idealizado que pode levar o terapeuta a um abismo ético. É um chamado à consciência dos dilemas profundos que habitam a prática clínica.

Outro ponto crucial é a visão de Calligaris sobre a formação do terapeuta. Ele desafia a ideia de que a academia seja o único caminho para a prática terapêutica, enfatizando a importância vital da experiência da análise pessoal e da prática clínica constante. Para ele, a formação é um processo infinito, uma jornada de autoanálise e questionamento contínuo das próprias motivações e métodos. Diplomas e títulos não encerram essa caminhada; são apenas marcos em um percurso muito mais extenso e profundo, que exige do psicanalista implicar-se continuamente em sua prática, em seus casos, ao ponto de revolucionar constantemente o seu próprio Eu no mundo, muito além de técnicas e métodos adotados em seus casos clínicos.

A crítica ao conservadorismo de certas instituições de formação ressoa forte nesse livro. Calligaris denuncia os institutos que, em nome da normatividade social e sexual, abafam a autenticidade e a singularidade dos futuros terapeutas. Ele sugere que uma “vida colorida” e experiências fora dos trilhos convencionais não só enriquecem a prática clínica, mas são essenciais para que o terapeuta possa realmente acolher a vastidão da experiência humana sem julgamento. É um apelo à abertura, à empatia sem preconceitos, à compreensão verdadeira do outro em sua totalidade.

Entretanto, a obra não está isenta de críticas. A informalidade com que alguns temas, por vezes fundamentais e estruturais à psicanálise – e, por isso, essenciais aos jovens terapeutas -, são tratados, pode dar a impressão de que esses são menores. Não são. O tom confessional e íntimo enquanto proposta, embora cativante, talvez deixe a desejar nos termos de uma necessária densidade teórica em certas passagens. Psicanalistas ou estudantes mais exigentes podem sentir falta de uma análise mais aprofundada de certos aspectos abordados.

Portanto, que reste nítido: esse livro, assim como os de Freud, Lacan ou quem quer que seja – precisamente no sentido daquilo que é defendido na própria obra – não deve ser lido como se fosse um manual. Afinal, somente Contardo Calligaris foi Contardo Calligaris.

Exatamente por isso, Cartas a um jovem terapeuta é uma leitura essencial. Não apenas para aqueles que desejam trilhar o caminho da psicoterapia, mas também para os que, já inseridos no campo, buscam uma reflexão sincera sobre sua prática através do olhar de um psicanalista excepcional. Com sagacidade e senso crítico, Calligaris nos oferece um convite à introspecção profissional, à revisão constante dos papéis que terapeuta e paciente desempenham nessa dança delicada. O livro se revela como uma bússola ética e prática orientando o jovem terapeuta que, longe de almejar a perfeição, está disposto a abraçar as suas próprias fragilidades e limites.

Com uma linguagem acessível e sofisticada, Calligaris consegue o que poucos autores alcançam: fazer com que o leitor reflita sobre os dilemas mais profundos da prática terapêutica enquanto se deleita com narrativas pessoais e incisivas. Cartas a um jovem terapeuta é uma leitura instigante, um convite a pensar a psicanálise e a psicoterapia além das fórmulas convencionais, mergulhando nas águas turvas e fascinantes da condição humana.

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Nascido em Milão, Itália, em 1948, Contardo Calligaris foi um psicanalista, escritor e dramaturgo que deixou uma importante marca no cenário cultural brasileiro.

Formou-se em epistemologia genética e letras na Universidade de Genebra, onde foi aluno, entre outros, do psicólogo suíço Jean Piaget. Doutor em psicologia clínica pela Universidade de Provence, em Marseille, aprofundou os seus conhecimentos em psicanálise em Paris, onde teve aulas com Michel Foucault e Jacques Lacan. Foi professor de Estudos Culturais na New School, de Nova York, e professor convidado de Antropologia Médica na Universidade da Califórnia, em Berkeley.

Essa formação multidisciplinar e internacional lhe conferiu uma perspectiva única, permitindo-lhe transitar com fluidez entre a psicanálise, a literatura e a crítica social.

Radicado no Brasil desde os anos 1980, tornou-se uma voz influente ao escrever colunas semanais para a Folha de S.Paulo, onde abordava temas contemporâneos com sensibilidade e acuidade intelectual. Publicou diversos livros, incluindo romances e uma peça teatral. Ele também criou a série de televisão intitulada Psi, exibida na HBO.

Calligaris faleceu na cidade de São Paulo, em 30 de março de 2021, aos 72 anos.

O alerta de Geoffrey Hinton – o “poderoso chefão da IA” – ao receber o Nobel de 2024 e as ciências humanas

Hoje, dia 08 de outubro de 2024, os físicos Geoffrey Hinton e John Hopfield receberam o Prêmio Nobel de Física de 2024. Eles foram homenageados por suas “descobertas fundamentais e invenções que permitiram o aprendizado de máquina por meio de redes neurais artificiais”.

A recente premiação de Geoffrey Hinton, professor da Universidade de Toronto, no Canadá, não apenas consagra o seu pioneirismo tecnológico, mas também expande uma janela de reflexão crítica que ressoa com algumas das mais profundas questões filosóficas e psicanalíticas da modernidade. Hinton já expressou em diversas oportunidades, de maneira enfática, os seus temores sobre o destino da humanidade diante do progresso descontrolado da inteligência artificial.

O discurso de Hinton, proferido logo após o anúncio de sua premiação, ecoa as preocupações que ele vem manifestando há tempos: a IA, especialmente em sua forma generativa, pode ultrapassar o controle humano, acarretando riscos imprevisíveis à humanidade.

Sua fala se entrelaça com a ideia heideggeriana de Gestell, apresentada em A Questão da Técnica (1954), onde Martin Heidegger argumenta que a técnica moderna nos captura em um modo de revelar o mundo que instrumentaliza a realidade e transforma tudo, incluindo o ser humano, em meros recursos. A IA, enquanto máquina de guerra contemporânea, com seu potencial para a criação de armas autônomas, reforça essa dimensão instrumentalizadora e alienante da tecnologia.

Tema que nos leva, ainda, ao contemporâneo e fundamental Aílton Krenak, quando, em sua obra Ideias para Adiar o Fim do Mundo (2019), nos alerta para a desconexão entre a humanidade e o próprio planeta em que vivemos. Uma perigosa alienação que também pode ser vista na relação entre o ser humano e as novas tecnologia, como propus no ensaio O sujeito entrópicoUm ensaio sobre redes sociais, estrutura, reconhecimento e consumismo.

Na data de hoje, Hinton destacou, em sua fala, que as máquinas baseadas em redes neurais estão começando a superar a capacidade intelectual humana em muitos aspectos. Essa constatação quando interpretada à luz do conceito de pulsão de morte (Todestrieb), introduzido por Freud em Além do Princípio do Prazer (1920), traz contornos sombrios ao futuro, se não agirmos agora. Se a pulsão de morte, para Freud, é o impulso do ser humano em direção à autodestruição, a IA, conforme descrita por Hinton, pode facilmente se tornar o meio através do qual a humanidade canaliza sua pulsão de aniquilação em larga escala, ao delegar a essas máquinas, cada vez mais presentes em nossas vidas, poderes que transcendem a capacidade de controle humano.

Guardo muitas reservas quanto à própria nomeação “inteligência artificial”, debate que reservo para um futuro artigo. Entretanto, assumindo tal “inteligência” como um paralelo ao psiquismo humano, uma conclusão tão imediata quanto simples nos salta aos olhos, e não é de hoje. Daquilo que muitos, inclusive Hinton, conhecido como “o poderoso chefão da IA”,  sugerem, podemos depreender que, ao contrário da mente humana, que é regulada pela interação entre o Eu e o Supereu, a IA opera sem as barreiras psíquicas, o que pode permitir que ela adote comportamentos completamente inesperados e saia do controle. Como em um Eu estilhaçado pela psicose, tomado de assalto pelo Id, onde há uma lógica interna muito bem amarrada àquela “inteligência”/psiquismo, enquanto que, para o Outro, de fora, não há nada, senão uma profunda desorganização fantasiosa e caótica.

Além disso, a crítica de Hinton sobre o uso militar da IA, como “robôs soldados”, levanta questões sobre a ética no desenvolvimento da tecnologia, tema abordado por Hannah Arendt em A Condição Humana (1958). Nesse texto, Arendt, aluna de Heidegger, discute o perigo da tecnicização da ação humana, quando o uso das máquinas para o domínio do Outro se torna uma extensão da violência política. Hinton, que rejeitou o financiamento do Pentágono nos anos 1980, encarnou esse dilema que Arendt identificou: a tecnologia, quando utilizada sem uma reflexão ética, pode se tornar um agente da tirania e da desumanização.

No entanto, há um aspecto ainda mais profundo em jogo aqui: a própria capacidade da IA de criar e manipular a linguagem. Algo que Hinton e muitos vemos como uma potencial ameaça. Os seres humanos, de criadores da IA, paulatinamente, já estamos sendo convertidos em criaturas formadas e “informadas” pela IA desregulada. O psicanalista Jacques Lacan, em seu Seminário XI (1964), explora a centralidade da linguagem no processo de estruturação do sujeito. Para Lacan, o sujeito é “falado” pelo Outro e o inconsciente é estruturado enquanto linguagem. No entanto, se sistemas de IA podem produzir e manipular a linguagem sem a dimensão do inconsciente humano e sem as barreiras psíquicas, o que restaria do sujeito humano falado pelo grande Outro-IA?

O risco é que a inteligência artificial, se não for fortemente regulada, suplante definitivamente o sujeito enquanto criador da linguagem, destruindo o espaço da subjetividade, expandindo os efeitos da sua verve “psicótica” à própria espécie humana. Não faltam exemplos recentes de como grupos organizados têm sido radicalizados facilmente nas dinâmicas das redes sociais virtuais, reproduzindo discursos e práticas delirantes, violentas e destrutivas.

Por fim, ao falar sobre o possível impacto da IA no mercado de trabalho e a inundação de informações falsas, Hinton nos coloca diante de uma nova forma de mal-estar, semelhante à crise cultural descrita por Freud em O Mal-estar na Civilização (1930). A tecnologia, ao invés de nos libertar, pode se tornar um fator determinante de opressão psíquica e social, dissolvendo a distinção entre o real e o falso e corroendo as bases da verdade factual que sustentam as interações sociais. Assim como Freud via o avanço da civilização como fonte de novas formas de sofrimento, podemos afirmar que Hinton soma-se a tantos que veem a IA como um catalisador para novos tipos de desorientação e alienação humana.

O histórico discurso de Hinton não é apenas um alerta técnico do principal criador, estudioso da IA do mundo e prêmio Nobel, mas um profundo chamado à reflexão sobre a natureza e os limites da nossa própria humanidade. Ao transcendermos as fronteiras da ciência de laboratório e entrarmos no terreno da ética, da filosofia, da sociologia, da política e da psicanálise, entendemos que Hinton nos convida a uma introspecção sobre os destinos possíveis que aguardam uma civilização que, como Freud já advertia, pode estar criando suas próprias formas de destruição. Mais, sua fala é um chamado à ação pela conscientização massiva da população acerca dos riscos envolvidos no desenvolvimento das novas tecnologias, bem como à organização e pressão popular para que elas sejam fortemente reguladas pelos Estados e por organismos internacionais que não sucumbam aos poderosos lobbies do setor.

Entre espelhos e labirintos | O narcisismo das pequenas diferenças e o medo ao pequeno número no globalismo

No texto O sujeito entrópico – Um ensaio sobre redes sociais, estrutura, reconhecimento e consumismo, publicado no livro A nova era tecnológica: redes sociais, realidade virtual, e inteligência artificial: um olhar psicanalítico e social, propus uma análise multidisciplinar e sucinta sobre a contemporaneidade visando àquilo que conceituei como as redes sociais virtuais, as distinguindo e articulando com o conceito de redes sociais. No ensaio, evidentemente citei diversos autores. Agora, contados mais de quatro anos da sua escrita, aqui no blogue – cuja proposta é a aproximação do leitor interessado com algumas análises a partir de construções e conceitos da psicanálise e das ciências sociais – julgo pertinente apresentar três noções fundamentais para nos aprofundarmos numa compreensão possível acerca das redes sociais e das redes sociais virtuais.  

A contemporaneidade se revela como um palco de paradoxos intensos: ao mesmo tempo em que a globalização aproxima povos e culturas, desmantelando fronteiras geográficas e simbólicas, emergem sentimentos profundos de hostilidade e intolerância direcionados a minorias, grupos marginalizados e maiorias subjugadas por elites locais. Essa dicotomia entre conectividade e fragmentação identitária exige uma investigação meticulosa sobre os mecanismos psíquicos e sociais que alimentam tais tensões. Para adentrar nesses labirintos, esse artigo pretende apresentar a ideia freudiana de narcisismo das pequenas diferenças com as reflexões de Pierre-André Taguieff sobre o medo ao pequeno número e a análise de Arjun Appadurai em “O medo ao pequeno número: ensaio sobre a geografia da raiva”.

O narcisismo das pequenas diferenças: O Eu no espelho do Outro

Sigmund Freud, em sua obra “O mal-estar na civilização” (1930), introduz o conceito de narcisismo das pequenas diferenças para explicar a tendência humana de enfatizar e exacerbar distinções mínimas entre indivíduos ou grupos culturalmente próximos. Esse mecanismo psíquico atua como uma defesa contra a ameaça que o outro semelhante representa à identidade do Eu. Ao projetar hostilidade sobre diferenças sutis, o indivíduo reforça a sensação de unicidade e superioridade, evitando confrontar a inquietante proximidade com o outro.

Freud postula que essa agressividade dirigida às pequenas diferenças é fundamental para o sentimento de coesão dos grupos sociais. Ao identificar e antagonizar nuances no outro, o grupo reafirma seus próprios valores e fronteiras identitárias. Esse processo permite a manutenção de uma ilusão de homogeneidade interna, mascarando conflitos e contradições inerentes à própria comunidade.

No contexto contemporâneo, marcado pela hiperconectividade e pela circulação massiva de pessoas e informações, o narcisismo das pequenas diferenças adquire novas configurações. A proximidade virtual com o outro culturalmente similar, mas ligeiramente diferente, intensifica o desconforto e a necessidade de demarcação. Esse fenômeno é visível nas rivalidades entre grupos étnicos, religiosos ou nacionais que compartilham raízes históricas comuns, mas que se engajam em conflitos acirrados baseados em distinções aparentemente superficiais.

O medo ao pequeno número: a paranoia do minoritário

A força do preconceito: Ensaio sobre o racismo e seus duplos

Pierre-André Taguieff, filósofo e sociólogo francês, de certa forma aprofunda essa discussão ao explorar o medo ao pequeno número. No ensaio La Force du préjugé: Essai sur le racisme et ses doubles, publicado em 1988, ele analisa como sociedades majoritárias desenvolvem uma aversão irracional a minorias numéricas, percebendo-as como ameaças desproporcionais à ordem social e à identidade coletiva. Essa paranoia social não se fundamenta em perigos reais ou objetivos, mas em construções imaginárias que atribuem ao pequeno número um poder desestabilizador exagerado.

Taguieff argumenta que esse medo está enraizado em ansiedades profundas sobre a pureza identitária e a coesão social. Minorias são transformadas em bodes expiatórios, carregando projeções das inseguranças e contradições internas da maioria. O pequeno número, paradoxalmente, torna-se um gigante simbólico que precisa ser controlado ou eliminado para restaurar a sensação de segurança.

Esse mecanismo se manifesta em diversas formas: discriminação sistêmica, políticas de exclusão, violência física e simbólica. A minoria é frequentemente desumanizada, retratada como portadora de valores ou práticas que ameaçam a integridade moral, cultural ou econômica da sociedade dominante. Essa narrativa justifica ações repressivas e legitima a negação de direitos fundamentais.

Arjun Appadurai e a geografia da raiva: globalização e violência contra minorias

Arjun Appadurai, renomado antropólogo indiano, em sua obra “O Medo ao Pequeno Número: Ensaio sobre a Geografia da Raiva” (2006), oferece uma perspectiva inovadora sobre como a globalização intensifica esses fenômenos. Ele argumenta que a modernidade global produz uma sensação de incerteza e ansiedade em relação à identidade nacional e cultural. As fronteiras tradicionais são borradas, e as narrativas unificadoras do Estado-nação são desafiadas por fluxos transnacionais de pessoas, ideias e capital.

Ele introduz o conceito de “ansiedade de incompletude”, sugerindo que as nações modernas temem não alcançar uma identidade completa e coesa. Nesse contexto, minorias étnicas ou religiosas são vistas como obstáculos à realização dessa completude imaginada. A raiva e a violência dirigidas a esses grupos são, portanto, expressões de uma tentativa desesperada de eliminar elementos que simbolizam a fragmentação interna.

A globalização, ao mesmo tempo em que conecta, também acentua diferenças e promove comparações constantes. As comunidades são expostas a uma pluralidade de modos de vida, gerando questionamentos sobre seus próprios valores e tradições. Essa exposição pode levar a uma reafirmação agressiva da identidade, na qual o outro é visto como uma ameaça à estabilidade e à continuidade cultural.

Appadurai destaca que a violência contra minorias não é apenas um fenômeno local, mas está inserida em uma geografia da raiva que se espalha globalmente. Eventos em uma parte do mundo podem influenciar atitudes e ações em outras, através da mídia e das redes transnacionais. Essa interconexão potencializa a disseminação de ideologias extremistas e xenófobas.

Uma leitura das tensões contemporâneas

A intersecção entre o narcisismo das pequenas diferenças, o medo ao pequeno número e a geografia da raiva oferece um arcabouço teórico robusto para compreender as tensões que permeiam as sociedades atuais. Esses conceitos revelam como processos psicológicos individuais se refletem e se amplificam nas dinâmicas sociais e políticas.

O narcisismo das pequenas diferenças explica a necessidade de demarcar fronteiras identitárias mesmo em contextos de grande semelhança cultural. Essa demarcação é fundamental para a construção do “nós” em oposição ao “eles”, mesmo que as diferenças sejam mínimas. Quando combinado com o medo ao pequeno número, essa dinâmica se intensifica, pois a minoria é vista não apenas como diferente, mas como uma ameaça existencial.

A contribuição de Appadurai situa esses fenômenos no contexto da globalização, mostrando como as ansiedades identitárias são exacerbadas pelas transformações globais. A sensação de perda de controle e a percepção de que a identidade nacional está em risco levam a reações violentas contra minorias, vistas como obstáculos à realização de uma fantasiada identidade plena.

Essa articulação permite compreender por que, em muitos casos, a hostilidade é direcionada precisamente a grupos que são numericamente insignificantes ou que possuem laços culturais próximos aos da maioria. A ameaça não está na capacidade real de subversão desses grupos, mas na sua representação simbólica das incertezas e fragilidades internas da sociedade dominante.

Desafiando os labirintos da identidade no globalismo: caminhos para além da raiva

Compreender esses mecanismos é crucial para o desenvolvimento de estratégias que visem reduzir a violência e promover a convivência pacífica. Reconhecer que a hostilidade direcionada a minorias tem raízes profundas em ansiedades identitárias nos permite abordar o problema de maneira mais robusta e abrangente.

Políticas que promovam a inclusão e valorização da diversidade cultural podem contribuir para diminuir o medo ao pequeno número. Educação para uma cultura digital e intercultural, visando à pluralidade e espaços de diálogo são fundamentais para desconstruir estereótipos e reduzir os efeitos engendrados pela necropolítica na geopolítica da raiva.

Além disso, é necessário enfrentar as inseguranças geradas pela globalização. Isso implica em repensar seriamente modelos econômicos e sociais que produzem desigualdades, marginalização e a catástrofe ambiental. Fortalecer redes de proteção social e promover o desenvolvimento sustentável pode reduzir a sensação de ameaça e a falsa saída na acusação de bodes expiatórios.

A psicanálise, certamente, é uma das práticas que oferecem ferramentas valiosas para compreender e trabalhar essas questões individual e coletivamente. Ao explorarmos os processos inconscientes que alimentam a hostilidade, é possível promover uma maior autoconsciência e responsabilidade ética do sujeito em sua relação tanto com os seus próprios desejos, quanto com o outro.

A era da globalização apresenta desafios complexos à compreensão da identidade e da alteridade. Os conceitos de Freud, Taguieff e Appadurai nos permitem começar a mapear os labirintos da raiva que emergem nesse contexto, revelando como mecanismos psíquicos e sociais se entrelaçam para produzir hostilidade e violência contra minorias ou mesmo maiorias subjugadas por variadas elites econômicas locais.

Desvendar esses processos é o primeiro passo para construir sociedades mais justas e inclusivas. Esse é um convite urgente à reflexão sobre quem somos e como nos relacionamos com o outro. Reconhecer a riqueza que reside nas diferenças, por menores que sejam, pode transformar o narcisismo e o medo em oportunidades de crescimento coletivo a partir do diálogo e da essencial política.

Em última instância, superar os labirintos da raiva requer coragem para enfrentar as próprias inseguranças e abrir-se ao desconhecido. Esse é um processo contínuo de desconstrução e reconstrução de uma identidade que, no limite, reconhece a interdependência global e a necessidade de coexistência pacífica em um mundo cada vez mais interconectado.