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Fábio.

 

Governos Trump e Netanyahu levam o mundo ao cabo da Tormenta

Nas últimas 48 horas – no momento em que escrevo, 12 a 14 de junho de 2025 – adentramos no ponto de inflexão que explicita o movimento de queda do primeiro império verdadeiramente global da história. Conforme o esperado, ele, enquanto instrumento de determinados grupos econômicos, se lança ao mar enquanto atira para todos os lados e com todas as suas armas. Os acontecimentos que foram eclodidos nos últimos dois dias são o limiar de um processo racional de trucagem e avanço geopolítico agressivo, construído ao longo de 18 anos pelas mais poderosas forças político-econômicas ocidentais.

Abastecidos com os achados de Gastón Nievas e Thomas Piketty, em um novo banco de dados seminal que eles criaram e que reconstrói sistematicamente os fluxos de comércio global e a balança de pagamentos do mundo inteiro ao longo de mais de dois séculos (1800-2025), notamos de forma cristalina como as quase quatro décadas de desregulação neoliberal dos mercados funcionaram como drenos de riquezas que concentraram a renda global nas mãos da elite do Atlântico Norte em níveis nunca vistos. Assim, parece razoável inferirmos que tais grupos econômicos não aceitariam pacificamente a perda natural da hegemonia do dólar enquanto instrumento de controle que espolia a força de trabalho no restante do planeta.

Perda que viria e, suponho, invariavelmente virá. A questão que se coloca é: qual será o custo total imposto ao resto do mundo por tais forças?

Começamos a ver com maior nitidez agora. Os desdobramentos dos fatos ocorridos nas últimas horas já estão impactando a vida de absolutamente todas as pessoas do planeta, atentem-se elas ou não.

Nas palavras do prof. Renato Janine Ribeiro, o que os dados (do banco criado por Nievas e Piketty) mostram é o que todos no Sul Global sabiam instintivamente, mas que foi contrariado pela narrativa econômica dominante: a riqueza do Ocidente foi construída não por meio de produtividade superior ou “livre comércio”, mas por meio de extração sistemática, transferências forçadas e pilhagem colonial em uma escala que supera qualquer coisa previamente quantificada. Ele complementa, corretamente: O que também é extraordinário é que esse sistema de extração continua até hoje.

Pois bem, nas últimas horas, enquanto se multiplicam os protestos contra as medidas fascistas e ditatoriais do governo estadunidense contra a sua própria população, um senador foi expulso, jogado no chão e algemado após fazer uma pergunta para a secretária de Interior de Donald Trump em uma coletiva. Na última madrugada, em Minessota, o senador John Hoffman foi baleado múltiplas vezes juntamente com sua mulher na casa deles. Ambos passaram por cirurgia e estão internados. Poucos minutos depois, a deputada Melissa Hortman e o seu marido foram mortos a tiros em casa, também em Minessota.

O suspeito ainda não foi preso. Ele estava com uniforme de polícia e com um veículo equipado com luzes, que lembram viaturas policiais. Ele tem 57 anos, trabalha em uma empresa de segurança chamada Praetorian Guard Security e recebeu treinamento militar. Curiosidade: a aludida Guarda Pretoriana era uma unidade militar de elite no Império Romano, responsável pela proteção do imperador e de sua família.

Protestos estavam marcados para esse sábado na região. Hoje, 14 de junho, também é celebrado o Dia da Bandeira dos Estados Unidos e é aniversário de Trump. Desnecessário dizer que os três políticos, alvos do trumpismo, são democratas.

Ainda nessas poucas horas, de forma claramente articulada, Trump foi beneficiado pelo deslocamento das manchetes internacionais para os eventos ligados à outra frente do levante da internacional fascista, no Oriente Médio.

Enquanto o comandante do Titanic avança em seu projeto ditatorial que, ao que tudo indica, perpassa pela construção de uma guerra civil no país para que concentre poderes absolutos, o sanguinário governo israelense atacou o Irã, em uma manobra diversionista alinhada com o governo estadunidense. Este último, supostamente, vinha negociando com o antigo império persa para reduzir as tensões no Oriente Médio, após o início da limpeza étnica dentro das fronteiras ilegais de Israel, com o genocídio no território-gueto de Gaza.

Faixa de Gaza retratada de forma asquerosa por Trump como uma possível área para resorts de luxo destinados à elite global, contudo, de fato, terreno chave para o Atlântico Norte.

Em setembro de 2023 – um mês antes dos ataques do Hamas com caminhões, picapes, motocicletas, escavadeiras, lanchas e parapentes motorizados, facilitados pelo impopular e pressionado governo de Netanyahu – foi anunciado um megaprojeto de linhas ferroviárias, portuárias e energéticas que pretende ser uma alternativa à Nova Rota da Seda chinesa (Cinturão Econômico da Rota da Seda), denominado Corredor Econômico Índia – Oriente Médio – Europa (IMEC). Proposto por Estados Unidos, União Europeia, Índia e Arábia Saudita, participaram também de sua elaboração Jordânia e Israel. Este último não mantém relações diplomáticas com a Arábia Saudita, que já afirmou que não estabelecerá laços com Israel sem a criação de um Estado palestino. Acontece que o projeto do IMEC traça uma rota que perpassa por quase todo o território saudita até chegar ao porto de Haifa, no litoral israelense, ao norte da Faixa de Gaza e da Cisjordânia.

Projeto do Corredor Econômico Índia – Oriente Médio – Europa (IMEC).

Aqueles que analisam as intenções e propõem argumentações objetivas partindo das diferenças étnicas e religiosas entre os povos semitas da região erram feio. Traindo o legado de Ben-Gurion, críticas à parte, os neonazistas israelenses – sionistas da extrema-direita instalados no governo Natanyahu – não estariam em tal posição de poder internamente (após um golpe no judiciário) não fosse a sustentação do império e a complacência europeia, que vê neles a sobrevida dos seus papéis de crupiês dos grupos econômicos supramencionados, no grande cassino de cartas marcadas que é a economia mundial.

Conforme o esperado, na acelerada e imagética era digital desregulada – era das guerras híbridas -, a queda do império não seria gradual, muito menos ao longo de séculos, como foram as de outros impérios, sobretudo o romano. Eis a quantidade do calor dissipado pelo desengate geopolítico abrupto promovido pelos últimos acontecimentos. Esperado momento quando, no entanto, os dados são lançados para além do campo de visão dos meros mortais e das demandas dos mercados, sejam eles partes interessadas ou não.

Na última semana, em voto magistral pela regulação das redes sociais virtuais no Brasil, o ministro Flávio Dino indagou, no STF, se gostaríamos de viajar de avião caso não houvesse a regulação do setor. Pois bem, complemento: em relação às redes virtuais, objetivamente, a ausência de regulamentação é muito pior, porque elas em breve alcançarão a totalidade da população e têm a capacidade de remodelar a cognição, o hábito e o discurso coletivo segundo os seus interesses financeiros e políticos, consoantes aos grupos hegemônicos. Jamais vimos tamanha concentração do poder de alienar as massas.

Enquanto a política sucumbe à falsidade da antipolítica (fabricada industrialmente na sociedade do espetáculo a partir da primavera árabe, do 2013 brasileiro e do Maidan ucraniano), influenciadores despreparados (estridentes que viralizam) que viram deputados, bebês reborn, a série do momento e dancinhas de TikTok tonificam e instrumentalizam massas de sujeitos que se percebem cada vez mais desenraizados e desesperados para pertencerem a uma trajetória coletiva.

Em um ambiente onde muitos gritam em busca de atenção e quase ninguém escuta o outro e a si próprio, bombas e imagens de um terror real misturam-se a trends de unicórnios como numa tourada algorítmica. Dinâmicas que reduzem o campo discursivo a memes, achatam complexidades, planificam valores coletivos e hiperestimulam a regressividade e um frágil narcisismo em milhões de pessoas. Estas, por sua vez viciadas (sim, esse é o nome) e intimamente enredadas no mal-estar contemporâneo, respondem elegendo facínoras construídos sob medida que – supunham tantos doutos nas torres acadêmicas – haviam sido enterrados com o fim da Segunda Guerra Mundial. Grosso modo, assim opera a arregimentação política da pulsão de morte por parte de setores econômicos interessados na sua instrumentalização.

Cabo da Tormenta ou Cabo da Boa Esperança, localizado a sul da Cidade do Cabo e a oeste da baía Falsa, na província do Cabo Ocidental, na África do Sul.

O mundo entrou, em velocidade de cruzeiro, na área do cabo da Boa Esperança, que, necessário relembrar, historicamente é conhecido como o cabo da Tormenta. Um salto no desconhecido que evoca nos espíritos inquietos duas questões: como e se completaremos, enquanto espécie, o périplo rumo a um novo horizonte.

Já estamos no ponto do qual não há mais retorno – ou no qual é derrotada a fantasia de que ele seria possível – nos parâmetros civilizatórios. Momento construído desde os primeiros dias subsequentes à quebra do subprime (títulos podres) em 2007, dos maiores bancos dos EU e do mundo e, consequentemente, da economia global em 2008. Desde então, o neoliberalismo se reorganizou naquilo que chamo de ultraliberalismo, abandonando sua hipocrisia anterior, quando seus defensores diziam que suas bases poderiam ser inclusivas. Ele abraçou explicitamente o autoritarismo violento e excludente que impõe à força os interesses do grande capital especulativo aos Estados nacionais.

No entanto, amplos setores das massas, cada vez mais marginalizados, precarizados em seus trabalhos, alienados e instrumentalizados trabalham precisamente contra os limites estreitos que restam à política e contra as possibilidades de transformação através da esfera pública; paradoxalmente (desde que não compreendamos o papel da pulsão de morte nesse processo), o único espaço social possível à sua autonomia e liberdade.

A tormenta chegou.

Entretanto, apesar da proximidade, o Brasil não é o Titanic.

São necessárias altivez, brio e coragem coletiva para abandonar, na máxima medida do possível, as subserviências cultural, econômica, política e jornalística aos EU, para que não sejamos dragados pelo vácuo que o seu naufrágio, enquanto império, poderá provocar nas Américas.

A regulação das plataformas digitais e a prisão da cúpula golpista no Brasil, vexatoriamente alinhada ao trumpismo e à internacional fascista, formam uma boa esperança que não deve, contudo, desmobilizar aqueles que incondicionalmente cerram fileiras de uma perspectiva humanista, democrática e inclusiva. Estes precisam (finalmente) entender que daqui por diante, para que sobrevivam, é preciso (infelizmente para tantos, compreensivamente) que se posicionem – não sobre tudo e todos, porque esse é o desserviço propiciado por tantos influenciadores – mas enquanto um enfrentamento às tantas violências oriundas do campo extremista. É preciso conversar, falar e, sobretudo, escutar.

Entre mísseis físicos e bombas semióticas nas redes, o silêncio é a morte. Ao exercício da cidadania e da defesa dos princípios fundamentais da Constituição Federal não basta mais somente o voto.

O trabalhador e a fábrica do gozo

Trabalhadores do mundo, uni-vos!

O grito de Marx, lançado contra a miséria material do século XIX, hoje ressoa diante de uma miséria subjetiva mais refinada — e não menos devastadora. A alienação, conceito central do pensamento marxista, já não se limita à separação entre o trabalhador e o produto de seu trabalho. No capitalismo digital, ela se expande: é o próprio sujeito que se vê expropriado de sua linguagem, de seu desejo, de sua escuta.

No pensamento de Hegel (1770 – 1831), a alienação é o processo em que a consciência se torna estranha a si mesma, afastada da sua natureza real. Já no marxismo, ela é o processo em que o ser humano se afasta da sua natureza real, torna-se estranho a si mesmo, pois os objetos que ele produz passam a adquirir uma existência independente do seu próprio poder e antagônica aos seus interesses.

Perceba a inversão promovida por Marx (1818 – 1883) e Engels (1820 – 1895), outrora “jovens hegelianos”. Eles invertem o sentido do vetor do idealismo hegeliano. Ou seja, ao invés de suporem que as ideias estão no ar – e se é possível pensá-las elas serão factíveis – o materialismo histórico e dialético apresenta as ideias como potenciais que brotam do chão onde pisam os pés.

Assim, o fato de nos tornarmos estranhos a nós mesmos, afastados da nossa natureza real, passa a ser um fenômeno daquilo que vemos no mundo real e não daquilo que supomos. Por isso, na metateoria marxista, foram lançados tantos conceitos para dar conta daquilo que era próprio àquele período histórico, como os de fetichismo da mercadoria e de reificação.

Note, ainda, que, ao citar o pensamento de Hegel, escrevi que a alienação é o processo em que a consciência se torna estranha a si mesma, enquanto que, ao citar Marx, usei o termo ser humano para descrever aquilo que se afasta da sua natureza real no processo da alienação. Essa diferença sutil também revela a inversão do sentido no vetor filosófico do idealismo pelo materialismo, uma vez que Hegel trabalha a noção de consciência enquanto uma fenomenologia do espírito rumo a um saber absoluto, enquanto Marx constrói o conceito de uma consciência de classe do indivíduo na sociedade capitalista que ele vê, pisa e busca transformar.

Desse modo, torna-se fundamental compreendermos como naquele tempo, e desde sempre até então, a consciência era compreendida quase que como um sinônimo do conhecer/compreender/saber de algo, que era inerente à experiência do indivíduo, assim como a sua alienação em relação aos objetos que ele cria. Portanto, aquilo que era desconhecido e inconsciente estava fora do indivíduo que era, daquilo, alienado.

Esse paradigma da consciência é quebrado quando Freud (1856 – 1939) conceitua o Inconsciente enquanto uma instância interna ao psiquismo. Portanto, deslocando a dimensão da alienação para aquilo que, em proporção infinitamente maior em relação ao consciente, reside dentro do próprio indivíduo; e não nos objetos. O Eu consciente não é o senhor em sua morada; ele é guiado pelo desejo pulsionado pelo inconsciente.

Essa introdução foi necessária para apresentar a ideia de que na era do capital informacional, a alienação já não opera apenas nos moldes clássicos descritos por Marx – a cisão entre o trabalhador e o fruto de sua produção. Hoje, ela se desloca para uma arena mais sutil: a do desejo capturado, calibrado e devolvido sob medida pelas engrenagens dos algoritmos.

As Big Techs não administram apenas dados: administram a subjetividade daquele que denominei como o sujeito entrópico. Elas não apenas exploram força de trabalho: elas modulam o inconsciente. São engenheiras daquilo que alguns têm chamado de dopamina algorítmica – uma lógica de estímulo intermitente, desenhada para ativar os circuitos de recompensa do cérebro e manter o sujeito em um estado de semieuforia permanente, de clique em clique, de story em story, de consumo em consumo.

Não se trata apenas de vender produtos, mas de produzir sujeitos vendáveis: atentos, reativos, performáticos, sempre conectados, reificados. Elas capturam o gozo e o reinjetam como produto — seja na forma de dopamina algorítmica, seja na ilusão de autonomia vendida como liberdade de escolha. O sujeito se torna usuário, perfil, avatar, métrica: um fragmento calculável de si mesmo.

De tal forma que a definição de reificação, no capitalismo presente e ultraliberal, só pode ser tomada por sua acepção por extensão de sentido, como aufere o dicionário Houaiss: qualquer processo em que uma realidade social ou subjetiva de natureza dinâmica e criativa passa a apresentar determinadas características – fixidez, automatismo, passividade – de um objeto inorgânico, perdendo sua autonomia e autoconsciência.

O que se aliena aqui – no interior do psiquismo do sujeito entrópico das redes sociais virtuais – não é só o tempo, mas o próprio desejo, agora convertido em um ativo do patrimônio das Big Techs, transformado em dado, explorado como insumo, objeto, produto. Lacan nos advertia: o sujeito é dividido; e é dessa divisão que nasce o desejo. Mas a economia digital, com seu vocabulário de engajamento e o seu imperativo de visibilidade, tenta tamponar essa divisão com simulacros de completude.

O gozo, transformado em capital psíquico-virtualizado, circula sob a lógica do like, da notificação, da viralização em um continuum que rompe com pilares estruturantes do pertencimento narcísico, como memória, tempo e espaço. A alienação se atualiza como plenitude simulada, onde o desejo é constantemente induzido a desejar mais do mesmo.

No âmbito social, quando quase tudo vira performance, quase nada mais é genuíno. Quando quase tudo é experiência imersiva, quase nada mais o é; e o que resta para além da ansiedade é o vazio. Na intimidade, quando o gozo é compulsivo, o que resta é culpa e dor.

A promessa de liberdade oferecida pelas plataformas digitais é uma cortina de fumaça: no fundo, trata-se de prender o sujeito não à máquina, como no início da modernidade, mas à sua própria imagem espelhada – e monetizada. A alienação torna-se, então, uma alienação do seu próprio potencial-inconsciente, reconfigurado segundo os interesses do mercado, em sua faceta ultraliberal e promotora do neofascismo.

Recuperar a escuta, sustentar o silêncio, resistir à captura do desejo por sistemas automatizados e promotores do excesso, aprender a perder objetos externos para ganhar a si próprio, a sua consciência e o seu inconsciente – talvez essas sejam as tarefas egóicas e heroicas do nosso tempo.

Isso, para que sobrevivam a ética e a solidariedade. Pois, ao fim, o apelo de Marx ganha uma ressonância necessária: “Trabalhadores do mundo, uni-vos!” – não apenas contra a exploração econômica, mas, antes, contra a espoliação dos seus próprios desejos.

Sem eles não há consciência, nem luta.

Carnavalize-se: o tesão está na RUA – Resistência, União e Alegria

Em um país no qual a alegria sempre foi percebida como um instrumento da sobrevivência e da resistência, o carnaval foi alçado a um espaço de encontros, representações, críticas, sustentações e subversões.

O fascismo, ao contrário, sempre foi a celebração do rígido, do uniforme, do previsível. Sua estética de ângulos retos e linhas duras, da marcha cadenciada, da obediência coreografada. Historicamente ele não tolerava o desvio, o grotesco, a ironia – elementos essenciais da tradição carnavalesca.

No carnaval, a hierarquia aparentemente se dissolvia, os signos eram embaralhados e o poder, ridicularizado. Não por acaso, regimes fascistas sempre buscaram sufocar ou controlar as artes e expressões populares, temendo suas capacidades de desagregarem os alicerces do autoritarismo.

Isso mudou.

Em tempos de ameaças autoritárias pulverizadas e organizadas pelo planeta, compreender o carnaval – enquanto fato social na atual conjuntura brasileira – como um antídoto ao fascismo local significaria reconhecer que a sua estética do excesso, a sua política da brincadeira e a sua ética da transgressão seriam, por si só, formas de resistência à rigidez dos que pretendem restringir as liberdades para perpetuar a injustiça social do “mercado”, cada vez mais sanguinário.

Imagem gerada por IA pelo site Café com Pepino.

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Entretanto, o neofascismo e o neonazismo têm se massificado nos últimos quinze anos exatamente porque incorporaram em sua linguagem – desde os tempos em que se restringiam à deep web – o escárnio, o desvio, o grotesco, a ironia. Cultivo nítida a leitura de que esse processo, tal qual o reconhecemos em 2025, só foi possível em função da sua relação simbiótica com a massificação da internet e, em um segundo momento, das redes sociais virtuais.

Um fosso inédito foi aberto pela última revolução tecnológica. De um lado, uma juventude interessada nas novidades, como sempre, mas extremamente privilegiada – que teve acesso material aos recursos necessários nos primórdios da internet, enquanto diversão livre e descomprometida. Do outro, o universo adulto de então, que historicamente ditou os rumos das novas tecnologias e estava alheio à revolução que ocorria. Assim, pela primeira vez na história da humanidade, o controle sobre uma revolução tecnológica não ficou nas mãos dos adultos.

Sarcasmo, ironia, inconsequência, o grotesco, medo, ansiedade, falta de limites e delírios de onipotência são predicados facilmente encontrados em jovens e em carnavais desde sempre. Assim, ao longo dos últimos trinta anos, o ethos da internet foi sendo configurado simbolicamente com tal regressividade.

O pior? Uma regressividade simbolizada pelo universo emocional de arrogantes adolescentes da elite econômica mundial. Quando alguns deles se tornaram bilionários “brincando” e ficaram cada vez mais poderosos enquanto envelheciam, provavelmente se perceberam avalizados e aprovados num suposto “grande teste da vida”. Acreditaram que não precisavam mudar, a reverem suas visões de mundo, a aprenderem, a serem humildes diante do desconhecido. Eles não foram educados pela vida real, não tiveram desejos frustrados o suficiente, não foram castrados pela cultura, pelas leis, sequer foram submetidos ao contraditório. Eles fabricaram, sem resistência alguma dos Estados nacionais e de órgãos internacionais um novo mundo no qual são reis, déspotas.

Hoje, o que temos é uma confraria com meia-dúzia de moleques, entre 30, 40 e 50 anos de idade, controlando os destinos de países e do planeta. Suas ações são, eternamente, uma brincadeira, ainda que lancem bilhões de seres humanos no abismo. Tal revolução promoveu uma fratura global que se consolida, nos dias atuais, no poder assustador adquirido pelas Big Tech que ajudaram a construir e, agora, abertamente legitimam e promovem o neofascismo e o neonazismo. Do sonho de uma internet livre, que seria uma difusora de conhecimento e da liberdade, passamos aos monopólios desregulados de grandes corporações comandadas por regredidos com aspirações messiânicas e totalitárias. No texto O sujeito entrópico – Um ensaio sobre redes sociais, estrutura, reconhecimento e consumismo propus uma extensa análise a esse respeito.

Fiz essa digressão porque, ao escrever sobre o carnaval em tempos sombrios, penso que devemos reconhecer que o fascismo se carnavalizou e, talvez por isso, em larga medida, popularizou-se. Ele propala às massas – de fato, é promovido pelo grande capital nas redes sociais virtuais – o pensamento mágico; não enquanto fantasia, mas como força de concretude. Vende-se, assim, com as mais sofisticadas técnicas de marketing uma História mentirosa, falsa, deturpada, delírios, uma realidade alternativa, um Brasil paralelo, uma Terra plana. Como se instalassem, desse modo, um chip nos cérebros de milhões de pessoas que, ao contrário do que lhes propiciaria o carnaval, são aprisionadas em um universo paralelo de negação, cujo combustível são o medo e o ódio, porém, que os liberta naquilo que descrevo como uma psicose compartilhada.

Essa estratégia sádica do capital após a crise de 2008, portanto, é o exato oposto daquilo que ele apregoa e vende. Ela não é libertária do ponto de vista econômico, filosófico e sociopolítico, mas uma ação doutrinária sem precedentes, cuja dominação é percebida cognitivamente como libertadora por aqueles que passam a fazer parte do seu rebanho, da sua seita terrorista e, por isso, a defendê-lo até à morte, sem qualquer consciência de que o esteja fazendo. Inclusive, com alto grau de suscetibilidade a tais discursos de ódio estão aqueles que foram frustrados, precarizados e marginalizados pelo neoliberalismo – anos 1980-90 -, que estavam com muita raiva de “tudo que está aí”. Portanto, o fascismo contemporâneo é um fenômeno de massa.

Entretanto, apesar de apresentar-se como um bufão com uma máscara barroca, o fascismo sempre se fundou, e assim continua, no medo, na covardia, na violência e na homogeneização, enquanto o carnaval, de fato, é um espaço de multiplicidade e coragem, uma pedagogia do descontrole onde a alegria da partilha é um ato político, não o ódio. O fato social carnaval nos ensina que o riso não é apenas uma manifestação do prazer e da alegria, mas também uma arma contra as forças da necropolítica contemporânea que operam aquilo que chamo de ultraliberalismo.

O fascismo carnavalizado continua nadando de braçada na internet, no tanque que lhe foi fabricado e tem sido ampliado pelas grandes corporações. Já ao carnaval cabe o verdadeiro espaço público: as ruas, praças e avenidas. Nas frestas dessa folia, músicas e ideias sempre surgiram para confrontar ditaduras, velhos moralismos e a rotina violenta promovida pelo status quo brasileiro. Por isso, a presente discussão se tece no cruzamento entre o desejo de liberdade – o uso do riso como tática de resistência – e a consciência de que as festas populares, especialmente o carnaval, também guardam estruturas de poder e hierarquia. Para tanto, contraponho duas obras que julgo complementares e essenciais para compreendermos a importância crescente de nos carnavalizarmos na atual conjuntura brasileira e mundial.

I. Carnaval brasileiro – o vivido e o mito

Um dos pilares da sociologia brasileira, Maria Isaura Pereira de Queiroz, em Carnaval brasileiro – o vivido e o mito (1992), investiga a dualidade entre a estrutura concreta do carnaval e a imagem idealizada que o envolve. Enquanto o mito sugere uma suspensão das hierarquias sociais e a liberdade irrestrita dos foliões, a realidade demonstra que a festa, ao invés de subverter a ordem, a reafirma. A autora desmonta a visão de que o carnaval seria um espaço de inversão social, mostrando que, apesar da aparência democrática, a festa segue reproduzindo desigualdades e mantendo formas de exclusão.

A análise parte do estudo histórico da transição do “entrudo” português para o carnaval moderno. O entrudo, marcado por brincadeiras desordenadas e interações comunitárias, foi gradualmente substituído por um modelo de festa organizado e disciplinado, especialmente sob influência da elite europeia. No Brasil, esse processo acompanhou a urbanização e o crescimento econômico, resultando na consolidação do carnaval como um grande evento nacional. Enquanto em Portugal a festa perdeu força, no Brasil ela se institucionalizou e se tornou um dos principais símbolos culturais do país. No entanto, essa hegemonia não ocorreu sem disputas. O controle sobre a festa passou a ser exercido por empresários, políticos e patrocinadores, tornando-a menos espontânea e mais voltada ao espetáculo do que à participação popular livre.

Imagem gerada por IA pelo site Café com Pepino.

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O mito carnavalesco é sustentado pela ideia de que, durante a festa, diferenças de classe, raça e poder desaparecem, criando uma sociedade alternativa, ao menos temporariamente. No entanto, Queiroz demonstra que essa visão esconde o funcionamento real do carnaval. O caso das escolas de samba do Rio de Janeiro é ilustrativo: surgidas em comunidades periféricas, essas escolas foram progressivamente apropriadas por gestores e investidores externos, afastando os sambistas das decisões estruturais. Os desfiles, muitas vezes exaltados como expressões genuínas da cultura popular, seguem regras rígidas, são avaliados por critérios técnicos e se tornam verdadeiros espetáculos empresariais. O mesmo ocorre nos bailes carnavalescos, onde a segregação se mantém evidente – os ingressos limitam a participação de determinados grupos, enquanto os espaços mais prestigiosos são reservados à elite.

Desde o século XIX, o carnaval foi incorporado à construção da identidade nacional. O movimento modernista e o Estado Novo ajudaram a promovê-lo como um símbolo da brasilidade, destacando sua diversidade e alegria. Entretanto, Queiroz aponta que essa valorização cultural não implica maior inclusão social. O carnaval é exaltado como manifestação popular, mas os setores populares permanecem distantes da sua administração e lucratividade. Sua institucionalização fortaleceu a festa como um evento oficial, mas também restringiu a autonomia dos foliões.

Ao examinar escolas de samba, blocos e bailes, Queiroz conclui que o carnaval não rompe com a estrutura social vigente, mas a reforça. As normas que regem os desfiles, a segregação econômica dos eventos e o controle exercido por patrocinadores e governantes revelam que a festa está longe de ser um momento de anulação das desigualdades. Como afirma a autora, o mito carnavalesco reúne observações, formula noções e constrói uma imagem social atraente, refúgio no qual os indivíduos, uma vez por ano, encontram o prazer de uma existência alegre e livre, oposta à penosa aceitação das desilusões do cotidiano. Mas é apenas uma imagem… (QUEIROZ, p. 195).

A obra desmonta a noção de carnaval como um espaço de liberdade plena, revelando sua complexidade estrutural. Queiroz demonstra que, por trás da aparência festiva, persistem as mesmas hierarquias e disputas que caracterizam a sociedade brasileira. Assim, podemos inferir, o Brasil e o mundo contemporâneos, sob a ameaça do fascismo carnavalizado. Sua análise desafia a visão romantizada da festa, convidando o leitor a enxergar o carnaval não apenas como celebração, mas como um fenômeno social marcado por tensões e dinâmicas de poder. O contraste entre o vivido e o mito expõe uma festa que, ao invés de instaurar uma realidade alternativa, reflete as contradições da própria sociedade que a celebra.

II. O carnaval à luz de Sem tesão não há solução, de Roberto Freire

Em Sem tesão não há solução (1987) – expressão lida pelo autor em um picho no muro de um cemitério de São Paulo -, Roberto Freire relata que nunca se submeteu passivamente à violência imposta pela ditadura militar no Brasil. Dissidente e indignado, enfrentou o regime de todas as formas possíveis, sendo perseguido, preso, torturado e testemunhando a morte de amigos. Diferente de alguns que suportaram a repressão sem recorrer às drogas, ele admitiu ter se tornado alcoólatra e usuário de diversas substâncias para suportar a dor e o medo. No entanto, atribuiu também ao álcool o fato de não ter enlouquecido ou cometido atos extremos.

Ao longo de dez anos de terapias intensas, conseguiu substituir essa dependência por uma ideologia transformadora, que o ajudou a canalizar sua energia vital e criativa naquilo que ele chama de ação revolucionária. Sobretudo esses trabalhos que culminaram na Somaterapia me restituíram o necessário tesão para levar adiante e com armas novas, mais eficientes, a luta contra o autoritarismo reativo que a violência do fascismo deixou infiltrado em mim. (FREIRE, p.78).

Assim, tesão, muito simples e resumidamente, quer significar hoje o que sentimos sensualizando juntos a beleza e a alegria em cada coisa com a qual entramos em contato e com a qual nos comunicamos. (FREIRE, p. 12).

Quando Roberto Freire propõe a ideia de que o “tesão” equivale a uma dimensão essencial da vida, algo que transcende o mero desejo sexual e se converte em uma energia vital, ele lança luz sobre múltiplos fenômenos culturais e políticos. Dentro desse horizonte, observar o carnaval brasileiro — símbolo de uma vitalidade quase anárquica em suas manifestações — por meio do prisma freiriano significa deslocar o foco dos aspectos organizacionais da folia para aquilo que Freud, Reich e o próprio Freire evocam: a fusão entre o prazer e a reinvenção da convivência social.

No livro, Freire defende que o tesão não se limita a um substantivo ligado somente à excitação carnal; além, o tesão se desdobra como força que desperta o entusiasmo, a criatividade e a vontade de viver. Aproxima-se, assim, do que ele chama de “ludicidade espontânea”, um modo de brincar e jogar com a vida que ultrapassa as fronteiras do produtivismo e da competitividade. Dessa perspectiva, portanto, reconheceríamos o carnaval enquanto uma explosão de cores, gestos, melodias e, sobretudo, participação coletiva. O fato social que estrutura um palco central daquilo que Freire poderia denominar de uma dimensão tesuda da existência.

1 – O carnaval como exaltação da alegria e do prazer

Um dos primeiros pontos que Freire sublinha é a fusão entre a busca do prazer e a rejeição da opressão, sejam suas raízes familiares, políticas ou religiosas. Ele critica diretamente as formas autoritárias que se manifestam nos lares e na sociedade, sustentando que o tesão é o antídoto mais visceral contra a normatização. No carnaval, essa crítica ganha concretude: a fantasia, o riso e a irreverência subvertem temporariamente as hierarquias, o status quo. Nele, milhões de pessoas se permitem vivenciar “o tesão de estar vivo”, com “os sentidos em estado de alerta, de prontidão, antenados, numa espécie de ereção vital, somática, geral.” (FREIRE, p. 11).

Ainda que os grandes interesses econômicos busquem “domesticar” a festa, o impulso profundo do carnaval permanece ancorado em sua raiz libertária, enquanto expressão popular. Um fato social delineado enquanto válvula de despressurização coletiva que ecoa, em parte, a proposta freiriana de que “tesão” não é só impulso erótico, mas sim alegria e prazer diante da vida, vontade de experienciar um campo coletivo que expande substancialmente a satisfação pulsional em sublimação e ato.

2- O combate ao autoritarismo nos corpos

Freire analisa, em diversos trechos, a forma pela qual a sociedade burguesa e o poder político instituído reprimem a livre expressão corporal. Ele argumenta que a família e as autoridades usam o moralismo para bloquear uma subjetividade revolucionária, impedindo as pessoas de se reconectarem a sua pulsão natural de prazer. Ora, durante o carnaval, por alguns dias, a liberação dos corpos age como uma ressurreição dessas forças vitais, ainda que efêmera. Abundam as expressões culturais, os excessos, as músicas, as fantasias, a nudez parcial, a sensualidade, a diversão ruidosa, a brincadeira franca, e — mesmo sob vigilância midiática ou institucional — o carnaval faz emergir a capacidade das pessoas de ocuparem as ruas e se encantarem pelos gestos e pelos encontros casuais, apesar da violência urbana.

Nesse sentido, no fato social carnaval, pulsa uma contracorrente às disciplinas impostas pela sociedade, mas autorizada pela cultura, que, por sua vez, promove uma suspensão parcial do supereu de cada folião. Tal contracorrente coincide com o pensamento do anarquista Freire, para quem “viver com tesão” é o oposto da obediência aos padrões de poder. Assim, nas avenidas, nos blocos de rua ou nos salões, configura-se um estado manifesto de gozo de existir, de alegria, ainda que fugaz.

3 – A alegria revolucionária não é maníaca, nem oriunda do consumismo

Imagem gerada por IA pelo site Café com Pepino.

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Para Freire, a fantasia e a imaginação lúdica são ferramentas fundamentais contra o desamor e contra qualquer forma de escravização emocional. O que acho mais bonito e vejo no amor dos casais revolucionários é como eles o vivem de forma lúdica, brincando e jogando sempre. A ludicidade é a mãe do tesão e, ao mesmo tempo, o pai da criatividade. É o processo de criação, no amor, que garante a sua sobrevivência (FREIRE, p. 112).

Se ele insiste que a criatividade do corpo e do afeto nos torna revolucionários, no carnaval esse é o mecanismo por excelência: as fantasias – sexuais, nos termos psicanalíticos, e literais, na forma de trajes – e a abertura para o encontro transformam as ruas em cenários de pura potencialidade. Muda-se de identidade, subverte-se o gênero, desloca-se a moral, e o que resta — no cerne — é a pulsação do desejo por uma vida sem barreiras. A força que une a ludicidade espontânea do carnaval e o “tesão” descrito por Freire nada mais é que a recusa total de encarar a vida como uma repetição de práticas rígidas, sem cor e sem brilho. Não é uma incoerência estúpida reclamar e um cinismo irresponsável ouvir reclamações sobre a falta de prazer sexual num corpo e numa pessoa para a qual tudo o mais na vida funciona sem nenhum prazer?” (FREIRE, p. 71).

Desta feita, é essencial o alerta de que tais práticas rígidas, sem cor e sem brilho são aquelas às quais estamos submetidos na rotina de trabalhos precarizados e exaustivos, das redes sociais virtuais, do consumismo, da ostentação, do narcisismo patológico e ansiogênico que assola o mundo contemporâneo, enquanto sintomas psicossociais nos indivíduos que encarnam as manifestações do ultraliberalismo e as suas aspirações totalitárias.

III. Carnavalize-se

O carnaval nos lembra que a alegria é um direito, um ato de resistência e, sobretudo, uma necessidade. Em tempos em que o ultraliberalismo promove o ódio e a violência, recobrar o tesão pela vida, pelo encontro e pelo outro torna-se não apenas um desejo, mas um caminho político à sobrevivência. Se o fascismo se apropriou da estética do grotesco e da ironia para esvaziar o riso de sua potência libertária, nos cabe recuperar o sentido mais profundo do carnaval – aquele que não apenas desorganiza, mas que reinventa, que não apenas subverte, mas que liberta.

Freire nos ensina que sem tesão não há solução, e isso não é apenas um mantra hedonista, mas um chamado à insubmissão diante do cinismo e da apatia contemporâneos. O carnaval é esse espaço onde o corpo se liberta, onde a alegria se expande e onde a criatividade floresce sem medo. Não se trata de um devaneio efêmero, mas de uma recusa contundente à normalização do medo e da destruição imposta pelo ultraliberalismo. Se o poder nos quer exaustos e obedientes, o carnaval nos ensina a nos mantermos vivos e insubordinados.

Portanto, carnavalizar-se é mais do que uma celebração passageira; é um modo de existência, um gesto de reivindicação da liberdade em sua forma mais vibrante. Em um mundo que quer nos tornar autômatos produtivos, a alegria é, sim, revolucionária. O riso, o prazer e o excesso não são apenas válvulas de escape – são ferramentas para reocupar o espaço público e reivindicar a nossa própria existência. Afinal, enquanto houver corpos que dançam, gargalham e celebram a pluralidade da vida, haverá uma real possibilidade de transformação. Isso é o que eles temem.

REFERÊNCIAS

FREIRE, Roberto. Sem tesão não há solução. São Paulo: Trigrama Editora, 1987.

QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. Carnaval brasileiro – o vivido e o mito. São Paulo: Brasiliense, 1992.

 

A engenharia social das Big Techs | Ultraliberalismo, extremismo e as origens do totalitarismo

No texto O sujeito entrópico – Um ensaio sobre redes sociais, estrutura, reconhecimento e consumismo, publicado em 2022, escrevi:

A sociedade globalizada tem nas novas tecnologias a sua infraestrutura racionalizável. Um alicerce cartesiano, técnico, científico e amoral, onde cada avanço é calculado, dando continuidade às disputas geoestratégicas e históricas entre nações, grupos organizados, etnias e corporações, pela primazia política no acesso aos recursos naturais, cada vez mais escassos. É em sua camada mais externa, portanto, visível e perceptível, campo sociocultural da moral e da ética – onde, até poucos anos atrás efetivavam-se as relações sociais numa forma aparentemente mais sólida e estruturada –, que ocorre o terremoto do sujeito das redes sociais virtuais. Fundamentalmente, diante do olhar atônito daqueles nascidos no mundo pré-globalismo.

Devido ao enorme avanço tecnológico em um curto espaço de tempo, em sua lógica micro e exponencial, houve uma alienação quase total das massas quanto às potencialidades e às realizações efetivas disto que chamamos de infraestrutura racionalizável nas novas dinâmicas globais. Alienação, esta, que atinge também setores mais aparentes dos Estados e da política institucional, enquanto possíveis agentes reguladores de ações socialmente temerárias.

Desdobrando o sentido da alienação a qual me referi, diante dos últimos acontecimentos, julgo pertinente o artigo que se segue.

A engenharia social das Big Techs | Ultraliberalismo, extremismo e as origens do totalitarismo

A engenharia social, uma técnica de manipulação psicológica para influenciar comportamentos e decisões de indivíduos e sociedades inteiras, tem sido amplamente utilizada no cenário global contemporâneo. Desde operações de inteligência de serviços secretos até campanhas de desinformação de poderosos grupos político-econômicos em larga escala, essa abordagem explora vulnerabilidades humanas e institucionais para alcançar objetivos estratégicos. Essa prática tem sido utilizada pelas Big Techs, especialmente alinhadas aos interesses da elite dos Estados Unidos, como ferramenta de preservação do poder em meio ao declínio da hegemonia geopolítica do país.

Do neoliberalismo ao ultraliberalismo

A transição do neoliberalismo para o ultraliberalismo representa uma radicalização das premissas econômicas e políticas que surgiram a partir da segunda metade do século XX. Embora ambos os conceitos estejam ancorados em uma defesa do livre mercado, da desregulamentação estatal e da primazia do capital privado, o ultraliberalismo aprofunda essas ideias, resultando em uma forma ainda mais extrema de concentração de poder econômico e de desmantelamento das instituições democráticas e sociais.

O neoliberalismo emergiu como uma reação às políticas intervencionistas do pós-guerra, baseando-se em teorias de economistas como Friedrich Hayek e Milton Friedman. Ele defendia a limitação da intervenção estatal na economia, a privatização de serviços públicos e a flexibilização das relações de trabalho. Essas ideias ganharam força durante os governos de Margaret Thatcher no Reino Unido e Ronald Reagan nos Estados Unidos, estabelecendo a crença de que o mercado, quando livre de regulações, seria capaz de autorregular-se e gerar prosperidade.

Contudo, o que se observou ao longo das décadas foi o aumento da desigualdade, a concentração de riquezas nas mãos de poucos e o enfraquecimento progressivo das redes de proteção social. As crises financeiras, como a de 2008, evidenciaram as falhas desse modelo ao demonstrar como a desregulamentação excessiva do sistema financeiro levou ao colapso global, afetando principalmente as populações mais vulneráveis, enquanto as elites econômicas continuaram a lucrar e a concentrar renda e poder.

O ultraliberalismo surge como uma resposta ainda mais radical a esse contexto, não apenas aprofundando os princípios do neoliberalismo, mas eliminando qualquer compromisso, ainda que ínfimo, com o bem-estar social e o equilíbrio democrático. No ultraliberalismo, o mercado não é apenas priorizado, mas passa a ser visto como o único regulador legítimo das relações humanas, superando até mesmo o papel de Estados e instituições democráticas. Esse modelo defende a financeirização extrema da economia, a especulação como motor central de acumulação de riqueza e a redução drástica de políticas públicas voltadas para o bem comum.

Diferentemente do neoliberalismo, que ainda operava sob a narrativa de “prosperidade compartilhada”, o ultraliberalismo abraça abertamente a desigualdade como um aspecto não somente inevitável, mas desejável, de uma sociedade onde o suposto mérito individual de bilionários e o acúmulo irrestrito de capital são exaltados, como se não se beneficiassem, historicamente, de desonerações, investimentos diretos de governos e dos avanços científicos oriundos de universidades públicas mundo afora. Esse modelo ultraliberal se manifesta de forma clara em empresas de tecnologia e finanças que operam sob lógicas monopolistas, como as Big Techs, que utilizam algoritmos para manipular mercados e comportamentos sociais, reforçando assim sua concentração de poder e controle informacional.

No plano político, o ultraliberalismo frequentemente se associa ao autoritarismo e ao neofascismo, pois, ao minar os fundamentos do Estado moderno como mediador de interesses sociais plurais, ele fomenta e organiza a extrema-direita, enquanto seu duplo que atua como escudo e capataz. Essa fusão ideológica pode ser observada em figuras como Jair Bolsonaro, Donald Trump e Giorgia Meloni, que, embora adotem discursos nacionalistas e de “defesa do povo”, implementam agendas econômicas de desmonte de direitos trabalhistas e de enfraquecimento das instituições democráticas.

Assim, a transição do neoliberalismo para o ultraliberalismo não é apenas uma evolução teórica, mas a intensificação de um projeto global de poder que busca consolidar a supremacia de uma elite financeira especulativa, enquanto desmantela progressivamente as conquistas sociais e os mecanismos de participação popular no processo político, conquistadas duramente ao longo do século XX.

Big Techs, controle informacional e ultraliberalismo

As Big Techs controlam os principais fluxos informacionais e, assim, exercem um poder inédito na manipulação de massas. Essa influência tem sido instrumentalizada para promover a ideologia ultraliberal que enfraquece regulações governamentais e deslegitima mecanismos democráticos de controle. A nomeação de figuras como Dana White, presidente do UFC, ao conselho da Meta, reflete essa lógica, pois White é associado a uma retórica extremista e associado aos valores de desregulamentação extrema.

Além disso, a Meta aboliu a checagem de fatos em sua plataforma nos EUA, substituindo-a por um sistema de “notas da comunidade”, inspirado no X de Elon Musk. Essa abordagem, apresentada como uma defesa da liberdade de expressão, enfraquece a verificação de informações e permite a proliferação de conteúdos desinformativos e extremistas.

O Google também demonstrou esse comportamento ao manipular, em dezembro de 2024, a cotação do dólar em sua plataforma, informando valores inflacionados durante o feriado, quando o mercado estava fechado. Outra evidência foi o caso de setembro de 2024, quando o Google ocultou informações de determinados candidatos políticos no Brasil, favorecendo candidatos de direita e extrema-direita enquanto ocultava perfis de centro-esquerda, sugerindo interferência algorítmica tendenciosa.

A pressão exercida pelo Google e pela Meta sobre o Congresso brasileiro para derrubar o Projeto de Lei 2630, conhecido como PL das Fake News, em 2023, exemplifica o modus operandi dessas empresas ao combater regulação. Durante 14 dias, as empresas promoveram campanhas massivas, incluindo ameaças de remoção de conteúdo e ataques direcionados a parlamentares para evitar a aprovação de uma legislação que buscava maior responsabilidade das plataformas digitais.

Extremismo e manipulação política

A ascensão da extrema-direita global, evidenciada por eventos como a eleição de Donald Trump e o avanço de líderes ultraconservadores na Europa e América Latina, está diretamente ligada à manipulação informacional promovida por essas plataformas. A crise financeira de 2007-2008 desempenhou um papel central nesse processo, pois intensificou políticas de austeridade e precarização social, fatores explorados por movimentos de extrema-direita que canalizaram o descontentamento popular para pautas identitárias e anti-imigratórias, em vez de questionar o neoliberalismo estrutural.

Essa estratégia discursiva não rejeita o neoliberalismo, mas explora ressentimentos em torno da globalização, do multiculturalismo e das imigrações de massas de sobreviventes – desalojados pelas guerras promovidas pelo capital – direcionando a frustração a minorias e enfraquecendo o debate democrático. Episódios como a invasão do Capitólio nos EUA e a destruição da Praça dos Três Poderes no Brasil refletem a ascensão do neofascismo nessa dinâmica global, como um leão de chácara violento, massificado e instrumentalizado para defender os projetos ultraliberais das elites financeiras locais.

No contexto latino-americano, além da retórica contrária ao multiculturalismo na globalização, há o uso de um discurso anticomunista delirante, no qual aqueles que defendem as instituições da democracia liberal, o socialismo democrático, o humanismo, as artes e a regulação do ultraliberalismo, inclusive das Big Techs, são frequentemente rotulados como inimigos da ordem social e da nação. Essa retórica não apenas deslegitima vozes críticas, a educação e a ciência, mas também fomenta um ambiente de violência extrema contra o pensamento crítico, em que qualquer oposição ao domínio corporativo e ao desmonte de direitos sociais é tratada como uma ameaça ao sistema que defendem, ainda que se julguem antissistema.

Esse é um enquadramento decisivo na anotação de que não há mais um neoliberalismo, mas um avanço à forma do ultraliberalismo, que se vale de mentiras e distorções massificadas, para doutrinarem setores das massas e arregimentarem as suas frustrações oriundas do neoliberalismo, que se tornou insustentável, após sua última crise mundial. Ao desviar o foco das consequências da desregulação econômica e da concentração de poder nas mãos de poucas empresas, esse discurso extremista protege interesses financeiros e políticos hegemônicos, enquanto ataca e enfraquece as bases do debate democrático e a busca por uma sociedade mais justa e equilibrada, inclusive com armas nas mãos e organizando o terrorismo doméstico.

O ultraliberalismo e a defesa da elite especulativa global

O ultraliberalismo promovido pelas Big Techs serve aos interesses de uma elite financeira global numericamente ínfima, mas com imenso poder sobre a economia e a política mundial. Essa elite utiliza o controle informacional e a manipulação algorítmica para manter e expandir sua influência, alimentando um ciclo de desigualdade econômica e injustiça social que, por sua vez, fomenta o extremismo e a polarização ideológica. Essa dinâmica reflete os valores e a visão de mundo do establishment WASP (White Anglo-Saxon Protestant), historicamente ligado ao domínio financeiro e cultural no Ocidente.

Imagem criada por “inteligência” artificial, pelo Café com Pepino.

O establishment WASP tem suas raízes profundas nas origens coloniais e racistas dos Estados Unidos e da Europa. No contexto norte-americano, por exemplo, a Ku Klux Klan (KKK) desempenhou um papel fundamental na preservação de uma hierarquia racial profundamente enraizada, defendendo uma sociedade segregada e branca, enquanto no Velho Continente, as potências coloniais europeias, como o Império Britânico e a França, impuseram um sistema de exploração baseado na subordinação racial e cultural das populações nativas. Esse legado colonial e racista, por sua vez, consolidou a supremacia econômica do Ocidente após a Segunda Guerra Mundial, com os Estados Unidos e o Reino Unido emergindo como os centros financeiros do mundo.

A ascensão de movimentos neonazistas e neofascistas, como a Alternativa para a Alemanha (AfD), a Frente Nacional (hoje Rassemblement National) na França, a Lega de Matteo Salvini na Itália e o Fratelli d’Italia-Alleanza Nazionale, liderado por Giorgia Meloni, ilustra a persistência de tais ideologias no cenário atual. Recentemente, em um artigo publicado no Welt am Sonntag, Elon Musk expressou apoio à AfD, partido de extrema-direita alemão que, desde 2021, é classificado pela agência de inteligência doméstica alemã como extremista. Musk, bilionário e dono de empresas como a Tesla e SpaceX, com cidadania americana, afirmou em um post no X (antigo Twitter) que “apenas a AfD pode salvar a Alemanha”. Esse posicionamento provocou a demissão de Eva Marie Kogel, editora de Opinião do jornal, que se afastou em protesto, ressaltando a importância da liberdade de expressão, mas também da responsabilidade jornalística.

O apoio de Musk à AfD se insere em um contexto mais amplo de apoio de figuras ultrarricas a movimentos populistas de direita, que não apenas defendem o desmantelamento das estruturas democráticas, mas também perpetuam um sistema de exploração global que favorece as grandes corporações, como demonstrado por Musk na sua postura em relação ao golpe de Estado na Bolívia em 2019. Ao comentar sobre o interesse de derrubar o governo de Evo Morales para garantir o controle sobre o lítio boliviano, Musk proferiu a frase “Vamos dar golpe em quem quisermos!”, em resposta a uma provocação sobre o impacto de sua influência econômica na região. Musk, ao apoiar uma agenda que almeja a exploração indiscriminada de recursos naturais em países latino-americanos, segue uma lógica de poder baseada no neocolonialismo, onde os interesses das elites financeiras globais se sobrepõem à soberania de nações e aos direitos das populações locais.

Em paralelo, o movimento neonazista na Alemanha, personificado pela AfD, segue em uma trajetória de negação da diversidade cultural e racial, mirando não apenas na desconstrução do Estado de bem-estar social, mas também na criação de um ambiente ideológico favorável à supremacia branca e ao ultranacionalismo. Esses movimentos têm ganhado força, particularmente com o respaldo de figuras como Musk, que, ao defender posturas antidemocráticas, alimenta uma narrativa global que visa consolidar ainda mais a elite especulativa global à custa dos povos marginalizados.

Ainda, a ideologia ultraliberal, impulsionada por figuras como Balaji Srinivasan, promove uma agenda ainda mais extrema: a substituição dos Estados modernos por feudos corporativos privados. Srinivasan defende a criação de microestados digitais e físicos, onde empresas e elites financeiras deteriam controle absoluto, abolindo a soberania estatal e os direitos garantidos pelas democracias constitucionais.

Esse conceito de “Estados em Rede”, promovido no Vale do Silício, não apenas despreza os princípios fundamentais dos Estados modernos, como os propostos por Rousseau em O contrato social, mas também retrocede ao modelo feudal de governança, no qual o poder era centralizado em poucas mãos e os direitos dos cidadãos eram praticamente inexistentes.

Essa filosofia, além de utópica e perigosa, já começa a se materializar em práticas como o projeto Próspera em Honduras, uma cidade privada que busca impor leis próprias em detrimento das legislações nacionais, gerando um ambiente de exploração e autoritarismo empresarial.

Essa aliança entre interesses financeiros e movimentos de extrema-direita é uma expressão do que pode ser entendido como uma globalização das elites, onde, ao contrário da globalização econômica que prometia falsamente prosperidade para todos, o que se consolida é um sistema ainda mais excludente, desigual e violento. Em um mundo onde o poder econômico está nas mãos de poucos, a manipulação de informações e a organização do extremismo se tornam instrumentos fundamentais para o controle social e político, criando condições para um ciclo interminável de concentração de riqueza e poder.

As origens do totalitarismo e as práticas das Big Techs

O projeto das Big Techs reflete as dinâmicas descritas por Hannah Arendt em As origens do totalitarismo. Arendt destacou como regimes totalitários promovem a distorção sistemática da verdade, criando realidades paralelas em que os fatos são manipulados para favorecer estruturas de poder. Essa manipulação, segundo ela, não é apenas uma forma de controle, mas parte essencial da desintegração da realidade objetiva, um processo fundamental para a manutenção de sistemas autoritários.

A recente alegação de Mark Zuckerberg sobre “cortes secretas” e censura na América Latina, bem como sua declaração sobre uma suposta “institucionalização da censura” na Europa, refletem uma estratégia retórica para escapar da regulação. No entanto, o histórico das Big Techs, incluindo a manipulação de informações, a interferência política e as campanhas contra regulações como o PL 2630 no Brasil, evidencia que essas alegações são tentativas de autopreservação em um setor cada vez mais fora de controle.

A engenharia social contemporânea conduzida por essas empresas não apenas distorce fatos, mas incentiva a fragmentação da realidade coletiva. As técnicas descritas por Arendt, como o isolamento informacional e a desintegração da percepção da verdade, são visíveis na forma como as Big Techs operam. A manipulação algorítmica, ao priorizar conteúdo polarizador e desinformativo, atomiza o debate público e desmobiliza o pensamento crítico.

Arendt analisou como o totalitarismo desarticula o espaço público ao substituir o debate racional por uma enxurrada de narrativas fabricadas e contraditórias, um fenômeno que encontra eco no funcionamento das plataformas digitais. As Big Techs, por meio de algoritmos opacos, não apenas amplificam informações falsas, mas também criam bolhas informativas que isolam os usuários em realidades alternativas, minando os fatos inexoráveis e o conceito de verdade compartilhada.

A desinformação massiva promovida por essas plataformas reflete a noção arendtiana de que o totalitarismo depende da destruição do juízo crítico. A exposição contínua a versões contraditórias da realidade, segundo Arendt, não visa convencer, mas desorientar e enfraquecer a capacidade de julgamento autônomo dos indivíduos. De forma semelhante, o modelo de negócios das Big Techs, baseado no engajamento por polarização, incentiva a confusão informacional e a passividade diante de narrativas distorcidas.

Outro aspecto central na análise de Arendt sobre o totalitarismo é o papel da burocracia despersonalizada e das estruturas de poder difusas, que tornam a responsabilização quase impossível. As Big Techs replicam essa lógica ao fragmentar sua atuação por meio de complexas redes de subsidiárias e seus respectivos e infindáveis algoritmos cujo funcionamento e impacto são mantidos deliberadamente obscuros. Assim como nos regimes totalitários descritos por Arendt, a concentração de poder se dá ao mesmo tempo em que a responsabilidade individual é diluída.

Portanto, a crítica de Arendt ao totalitarismo ilumina a forma como as Big Techs operam atualmente: ao manipular informações, distorcer a percepção coletiva da realidade e fragmentar o espaço público, essas empresas não apenas ameaçam a democracia, mas também se aproximam perigosamente das práticas de dominação descritas em sua obra. Suas táticas não são meramente falhas de um mercado desregulado, mas sim estratégias estruturais que concentram poder ao custo da autonomia e do discernimento crítico da sociedade.

O futuro

O avanço das Big Techs em manipular o fluxo global de informações sob uma lógica ultraliberal e antidemocrática demanda uma resposta urgente e coordenada. Inspirando-se nas reflexões de Hannah Arendt, é possível identificar as dinâmicas totalitárias que emergem quando o controle sobre a informação é concentrado em poucas corporações.

É imperativo que governos, sociedade civil e instituições multilaterais atuem juntos para estabelecer regulações que limitem o poder dessas plataformas. A imposição de responsabilidade e transparência, especialmente no uso de algoritmos e IA, é essencial para preservar a soberania informacional e garantir um ambiente digital mais ético, plural e verdadeiramente democrático. Somente com essas medidas será possível enfrentar os desafios de uma ordem multipolar e resistir à manipulação ideológica promovida pelas Big Techs em escala global.