Educação é cultura

Por Samuel Joaquim *

 

Ao longo dos anos, há uma frase recorrente nos cafés, padarias, bares e restaurantes, redes sociais – até nas próprias escolas: “o que falta no Brasil é educação”. Qualquer um de nós, em algum momento, já ouviu isso. Em geral, as pessoas estão se referindo à educação formal: ensino fundamental, médio e superior. Pois bem: falta? Falta. Mas é só esse o problema? É só isso que falta? Se olharmos para as classes mais abastadas do país, com boa formação e nos melhores empregos e cargos públicos, veremos lá a imagem de um país pronto para evoluir se “abrir a porteira” da educação de qualidade para todos? Ou veremos o retrato de um grupo que não enxerga na cultura e nas artes a mesma importância que conhecer matemática ou economia para promover uma sociedade evoluída com paz e igualdade?

Fazendo essa observação, possivelmente você verá uma elite que se enxerga como uma verdadeira casta superior, que não dá igual valor à vida de todos e faz questão de não perder seus privilégios, mesmo que isso signifique em última instância uma sociedade mais violenta. Mesmo que signifique não poder andar a pé tranquilamente pelos centros decadentes das cidades. E é importante salientar aqui: essa elite em geral teve toda educação formal a que se pode ter acesso. Então, só podemos concluir que falta algo a mais. A falta de empatia e do senso de coletividade não são supridas simplesmente numa disciplina de geografia em que se fala sobre estatísticas de pobreza e índices de desemprego.

Não que a “letra fria” da educação seja desimportante: um país não consegue se desenvolver sem o ensino tradicional. Bons profissionais de engenharia são fundamentais para alavancar a indústria. A saúde para todos não é possível sem médicos preparados. O Estado precisa de bons administradores e economistas. Quase nenhum cidadão consegue bons empregos sem uma formação técnica ou acadêmica, ficando a eles reservados os empregos de baixa especialização e, consequentemente, baixa remuneração. Além disso, obviamente não há como corrigir os erros do passado sem o conhecimento de história.

Mas a educação não termina ao fim da última aula do dia, do período letivo ou mesmo do curso de graduação. O conhecimento formal é parte integrante de algo maior, a cultura, e um grande erro que se comete é não enxergar educação e cultura como uma só coisa. Afinal, a cultura pode ser definida como a soma não só do conhecimento, mas também dos valores, sentimentos, artes, leis, costumes e hábitos das pessoas. O ser humano está constantemente aprendendo, somando e relacionando esses diferentes aspectos para viver sua vida. Assim, principalmente nessa época de quarentena e isolamento, precisamos nos apegar à cultura de forma mais ampla, não só como um passatempo, mas também como uma forma genuína de evolução, desenvolvimento da empatia e libertação. Para “aguentarmos o tranco” desses tempos difíceis – e, quem sabe, nos tornarmos uma sociedade mais igualitária.

 

A cultura e a arte como geradores de empatia

Gostaria de começar com um exemplo aparentemente banal, uma experiência própria: quando li o livro “Corações Sujos” de Fernando Morais, que fala sobre uma seita criada no Brasil pela comunidade japonesa após a Segunda Guerra que não admitia a derrota do Japão, descobri que a sede desse agrupamento ficava a poucas quadras de onde moro em São Paulo. Muitos consideram essa uma informação inútil isoladamente. Mas eu soube que, a menos de um quilômetro de casa, estava a sede de um agrupamento que assassinou dissidentes (alguns inclusive no próprio bairro). Soube que o horror, poucas décadas atrás, foi meu vizinho – mortes sem sentido ocorreram logo ali, atravessando algumas ruas, por pura ignorância. E com isso, me senti imbuído de um sentimento bem contundente: a ignorância precisa ser dizimada para que a relativa paz que hoje há no meu bairro possa ser conservada e ampliada. E, extrapolando, também a paz no Mundo.

Alguém poderia dizer que o livro é fruto de uma excelente pesquisa histórica feita pelo autor e que, portanto, poderia ser considerado até um instrumento de educação formal e utilizado tranquilamente em sala de aula como material de apoio ao ensino de história. Porém, a conclusão a que eu cheguei vem com uma carga de experiência pessoal única somada ao aspecto histórico, que me causou um impacto bastante diferente e próprio. Isso se deve à minha empatia, a minha capacidade de me colocar dentro dessa história para além da narração factual, já que eu constantemente passo pelo local citado no livro e que nunca me remeteria a um lugar onde se planejavam assassinatos, não fosse meu conhecimento adquirido. Uma coisa se casa à outra para melhorar minha percepção nessa micro-história.

Talvez um outro exemplo que permita enxergar melhor a função da cultura é citar uma obra de arte, digamos, não-factual. Um dos meus filmes favoritos é o filme “Laranja Mecânica”, dirigido pelo aclamado cineasta Stanley Kubrick. É um filme totalmente ficcional. Eu sei que nada do que se passa ali aconteceu realmente. Eu sei que as drogas da “ultraviolência” não existem (ao menos, não com aqueles nomes), que não existe Alex DeLarge, e que nunca existiu um medicamento capaz de inibir a maldade em um chefe de gangue e assassino cruel a ponto de ele se sentir enjoado sempre que pensar em cometer alguma atrocidade.

Porém, as cenas são retratadas de forma assustadoramente realística: eu sei que há o uso de drogas que podem exacerbar o comportamento violento na vida real. Eu sei que há a banalização da violência no dia-a-dia e que ela faz milhões de vítimas todo ano no mundo. E sei que há o sistema prisional atual como tentativa de educar os criminosos a rever suas ações que os levaram até ali. Além disso, a trajetória do personagem principal ao longo da história me permitiu tirar uma conclusão que provavelmente nenhum livro de história faria com tanto impacto: mesmo que houvesse uma “cura científica da maldade”, um sistema prisional comprovadamente capaz de “corrigir” a vida de crimes de alguém, uma sociedade com cultura punitivista não seria capaz de aceitar de volta esse paciente curado.

O intrigante do filme é justamente a sua capacidade de nos causar empatia para com o personagem principal. No começo, acompanhamos a sua vida como um cruel líder de gangue para, depois, sentir o seu sofrimento pós-tratamento quando todos os seus desafetos do passado passam a discriminá-lo, muitos deles com sede de vingança. E, de certa forma, sofremos com ele, a ponto de o realmente reconhecermos como um ser humano (tal como nós), e não um monstro. Porém, ao nos enxergarmos de volta como os “cidadãos de bem” da sociedade fictícia do filme (spoiler: não existe o conceito de cidadão de bem numa democracia!), isso nos faz refletir: “ei, eu realmente me enxergo nessa sociedade! Estamos no caminho certo? Violência para combater violência funciona como comportamento e política de Estado?”. Esse questionamento, mesmo trazido por uma obra completamente ficcional, nos trás um novo tipo de conhecimento, com especial impacto na nossa inteligência emocional. E, nesse momento, a arte se torna uma forma legítima de complemento à educação.

Também, como músico, eu não poderia deixar de falar sobre a igual importância de outras artes como (oh!) a música. Uma canção (ou seja, uma música cantada) pode ter igual efeito a uma poesia ou a um romance: entendemos os versos que estão sendo cantados, interpretamos o significado e podemos identificar ali a nós mesmos, nos questionar, pensar na mudança que queremos a partir de sentimentos que aquelas palavras nos causam.

Mas e as artes mais abstratas, a música instrumental ou pinturas, sem aparente semântica, sem uma história contada com palavras ou imagens que podemos reconhecer de forma lógica? São elas artes menos importantes? Não. O princípio é semelhante. É possível aprender com as artes abstratas.

Por exemplo: cores fortes na pintura causam um impacto e tons pastéis dão sensação de conforto. Na música, sons harmônicos e em volume normal nos causam uma sensação de paz. Sons altos e inarmônicos, um sentimento de inquietude e aflição. Acordes maiores soam alegres, acordes menores soam tristes. Uma justaposição ordenada de sons, timbres e harmonias diferentes podem fazer você se sentir alegre e com vontade de dançar ao som de Hamilton de Holanda tocando um choro do Pixinguinha ou você exercitar um pouco a sua melancolia (que é tão importante quanto exercitar a alegria) com a Sonata ao Luar de Beethoven.

Assim, a arte (incluindo a abstrata) consegue ajudar a aflorar seus sentidos e sentimentos, de uma forma muito particular. E lidar com esses sentimentos, extravasá-los, é uma forma de se conhecer melhor e de saber o que você é capaz de sentir e se preparar melhor para quando esses mesmos sentimentos pegarem você de surpresa em outros tempos (note aqui a curiosa tangência das artes com a psicanálise). E a arte feita com esse intuito, do autoconhecimento, não doutrina: ela liberta. E é bom sentir pelo menos algum grau de liberdade em dias tão claustrofóbicos.

————————————————————————

* Samuel Joaquim é desenvolvedor de software e músico. Da primeira profissão tira seu sustento, da segunda, sua razão de ser. Pianista desde pequeno, teve o privilégio de estudar piano popular nos anos 2000 com o seu ídolo, Hercules Gomes, quando ele ainda era uma promessa da música na cabeça do aluno – antes de ser uma realidade para o Mundo como hoje. Integra o grupo paulistano Esquina Imaginária, que presta homenagem (de sua forma particular) ao cultuado movimento belorizontino Clube da Esquina.

 

O Café com Pepino não endossa, necessariamente, todas as ideias e/ou práticas expressas no presente artigo.

Complexo de Getúlio

Por Hugo Ciavatta*

 

Freud que me perdoe, faltou-lhe entender que nós, brasileiros, padecemos de Complexo de Getúlio. É nossa alegoria, nossa metáfora, nosso recurso para tentar explicar nossa condição republicana tão corriqueira. Situação, aliás, que hoje beira o não verbalizável, aquilo sobre o qual procuramos palavras mas só temos vontade de gritar, que está às voltas quase como inacessível. Getúlio, como um mito, está em tantos lugares que é como se não estivesse em lugar algum. Nosso complexo é quem nos faz sofrer, dia após dia, pelo Brasil, de Atalaia do Norte a Touros, de Pacaraima a Bajé, sentimos cada movimento em nossos corações.

Piegas né, é verdade, porém é preciso dizer que “nós”, bem, nós não é assim um grande nós. Somos apenas aqueles que acreditam em aquecimento global, que não fazemos de nossas crenças religiosas um desejo de generalização ao país, impondo-as aos outros, que defendemos os direitos humanos, que acreditamos mesmo em democracia, em direito de defesa … Oops … É, pelo andar da carruagem do nosso tempo, talvez esse nós corresponda a um total enorme de 1,3% dos brasileiros.

Quando se trata de mito e psicanálise, cabe lembrar de Lévi-Strauss direcionando-se ao subtítulo de Totem e Tabu, de Freud, sobre as correspondências entre a vida psíquica dos selvagens e a dos neuróticos. O belga mais francês da Antropologia diz que nas páginas de A oleira ciumenta se dedicou a mostrar, por sua vez, a correspondência entre a vida psíquica dos selvagens e a dos psicanalistas. Não era, pois, muito sutil o Claude, não é?

Tudo isso para dizer que nosso mito de vida republicana, nosso Complexo de Getúlio insiste em querer Salvar o Brasil. Quase sempre, historicamente, isso significa salvá-lo dos comunistas. Os da foice e do martelo, nossa, devem ser um montante de 0,4% no país. Puxa, que perigo! E nós, os 1%, queremos é salvar o Brasil das mãos de certos patriotas. Entre neuróticos e psicanalistas, todavia, é selvageria para todo lado.

O suicídio de Getúlio Vargas em 1954 tem organizado nossa vida política como um mito, como a mitologia ameríndia organiza a vida dos povos indígenas das Américas. Isto é, na leitura de Lévi-Strauss, os mitos, enquanto narrativas, personagens e suas situações, propõem regras de ação para uma sociedade. Os mitos são a imaginação coletiva das práticas sociais dos sujeitos, mas nem por isso lhes são anteriores e imutáveis. Mitos são transformações históricas, mitos também são modificados por suas sociedades. A república brasileira é anterior ao acontecimento político em torno de Getúlio Vargas, depois dele, muito aconteceu ao Brasil. Há, no entanto, conexões em meio a isso que dizem muito sobre nós. Nós?

Em 1930, Getúlio juntou seus chegados e pôs de lado a elite cafeicultora de São Paulo e Minas, a que se revezava na presidência. Vargas colocou em prática o que também se tornou um rito, uma marca para sinalizar uma pretensa mudança na república tupiniquim: juntar uns parças e botar para correr quem está no poder. Foi assim com a trupe dos militares Deodoro e Floriano em relação à família dos Bragança e Bourbon, no ato propriamente de fundação dessa república, pondo fim ao período imperial.

Gegê não ficou satisfeito com a correria de 1930 e aprontou um imbróglio com a constituinte de 1934 para permanecer poder. Acostumou-se na fantasia presidencial e, além disso, em 1937, bolou um esquema, atribuiu aos comunistas um arranjo golpista e deu, ele mesmo, um golpe, outro golpe. Nascia o Estado Novo sob pretexto do Plano Cohen, que hoje poderia ser considerado uma grande Fake News – fico imaginando quem seria Luciano Hang à época.

Depois de finalmente largar o osso em 1945, Vargas voltaria à presidência nos anos 1950, desta vez eleito. Perto do fim do mandato, entretanto, um de seus seguranças foi acusado de atentar contra a vida do jornalista Carlos Lacerda, seu opositor ferrenho. Associou-se o segurança a mando do presidente, associou-se corrupção comprando a tentativa de assassinato de Lacerda. À luz de 1937, alguém poderia ter lhe dito: “é, parece que o jogo virou, não é mesmo, Getúlio?!”. Não havia delação premiada, nem um juiz-herói – o anacronismo aqui é sarcasmo –, de todo modo, Vargas se viu acuado e, por fim, tomou a decisão de Salvar o Brasil metendo uma bala no peito.

Nós, aquela porcentagem ridícula, por exemplo, assistimos à votação do impeachment, em 2016, ainda que sem apoiar os governos de Lula e Dilma Rousseff, e a cada “pelo conjunto da obra” de um deputado procurávamos um revólver para dar fim à agonia, sozinhos, diante da TV. Ninguém se pergunta, os patriotas de ocasião, se as tais pedaladas fiscais seguiram acontecendo de lá para cá, e se elas implicam a situação econômica do país antes dessa pandemia.

Em sua carta de despedida, o então presidente Vargas diz “sair da vida para entrar para a história”. Uai, e da história alguém está fora, Getúlio? Da história oficial, vá lá, a maioria, esquecidos, silenciados, ocultados. No entanto, assim como de seus respectivos corpos ninguém escapa, como quem habita o tempo estamos todos sempre na história. Vargas “saiu da vida para tornar-se mito”. Getúlio, desde o início de sua trajetória pública, seguiu o rito, entendeu o enredo brasileiro, as possibilidades que o roteiro lhe dava de se fazer política desde a fundação dessa república, e, muito antes de virar modinha, fez de si mesmo um mito.

Quem sabe Lévi-Strauss analisando as narrativas do Estado brasileiro dissesse que há pequenas inversões estruturais desdobrando-se em novas estórias. Ao cientista social contemporâneo, ainda, praticamente se apresenta a citação a respeito da repetição histórica, trocando farsa por tragédia no teatro-Brasil. Não. Nós, brasileiros – aquele 1% –, que gostamos de sofrer pelo Brasil, vimos em 1964 outros chegados traidores marcharem aqui e acolá. É, quase como Deodoro e Floriano, quase como Getúlio Vargas duas vezes. Sob pretexto da ameaça comunista, claro, como um filme repetido de 1937, militares apearam João Goulart do poder. Era o centrão de momento fazendo papel de grande inimigo da nação.

Centrão que nos últimos anos atende como demônio mor da pátria amada: Lula – buuuú. Ainda no início do processo que lhe deixou atrás das grades por meses, em 2016, Luiz Inácio declarou, “não tenho a vocação do Getúlio para me dar um tiro”. Tenho para mim que Lula não faltou à aula sobre O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. O ex-presidente quis dizer: “que Hegel e Marx me perdoem, se farsa, se tragédia, eu não vou me suicidar”. Ali, nós, os 1%, deveríamos ter sacado: fodeu. Tradução, Luiz Inácio disse: “eu não vou salvar o Brasil”.

Hoje, aqueles que se declaram os principais opositores de Lula, por outro lado, justamente para salvar o Brasil, colocam-se, eles mesmos, seus corpos, como a república. É metonímia, emerge discursivamente o absurdo de tomar a parte pelo todo. Nosso eterno retorno, claro, é o eterno retorno do mesmo: toda a nação são os opositores de Lula, seus corpos individuais são a república. É de deixar O Leviatã constrangido. Não são aquele 1% – ah, o diabo da ironia –, mas querem fazer acreditar que sofrem pelo Brasil.

O juiz-herói abdicou da magistratura para “trabalhar pelo Brasil”, foi o que se leu e se ouviu insistentemente. Virar ministro, mais, foi colocar sua vida em risco pelo Brasil, lê-se, ouve-se, vez sim, vez também. Tradução, por enquanto, o máximo que ele encena é querer livrar o Brasil de atitudes como a que ele mesmo parece ter tomado para que ele próprio estivesse no poder. O ex-capitão agora presidente, também, só repete que sobreviveu a uma tentativa de assassinato para lutar pelo Brasil. É sua missão, sua caminhada extenuante, porém, incansável – uma pena, retirar-se seria uma alegria inenarrável.

Como advertia – sim, ele de novo – Lévi-Strauss a respeito dos mitos, sociedades não são indivíduos, elas não procuram suas narrativas com quem consulta um catálogo, um manual de como proceder. Faltou combinar isso com os brasileiros: nós, brasileiros cômicos, e também os patriotas de ocasião, todos nas franjas da linguagem republicana provinda de Getúlio Vargas. Mas é aí que nos distanciamos, não nos comunicamos porque não é possível salvar o Brasil por caminhos tão divergentes.

Disparou o número de mortes de lideranças indígenas nos últimos anos. O desmatamento na Amazônia brasileira bate recordes atrás de recordes comparativos nesse mesmo período. Houve estiagem em algumas regiões do país, noutras, chuvas excessivas. Falta água em áreas conhecidas mundialmente por suas cataratas. O desemprego crescia mesmo diante das tão urgentes reformas das leis trabalhistas, e da previdência. Quem se importa? Mais um “e daí?” dos patriotas que fazem apenas de seus ícones o Brasil; nós, brasileiros risíveis, por outro lado, imaginamos a nossa própria morte a continuar vivendo nessa desgraça exponencial.

Portanto, chegou a hora de deixarmos o sofrimento, vamos nos entregar ao medo. Já vimos militares darem golpes à direita, já assistimos ao centrão dominar a política brasileira por décadas… falta uma guinada tout court à esquerda, uma de fazer inveja aos sovietes, aos guerrilheiros, uma reviravolta tonitruante! – sempre quis usar essa palavra. Vamos, comunistas, juntem seus camaradas! Somos quase nada percentualmente, mas estamos com vocês! Tomemos o poder, marchemos – de máscaras e álcool gel, evidentemente –, acabemos com essa aflição!

Tenhamos em mente, não esqueçamos a getulística, o nosso Complexo de Getúlio disseminado, e que há uma criatura que, possivelmente viva, é entendida como mito – muito longe de qualquer concepção ameríndia. Mas nem Vargas nem ex-capitão, tampouco juiz-herói! Vamos salvar o Brasil de 2020 de sua própria obsessão histórica! Em meio a uma pandemia global, vai pairar a dúvida se até mesmo um tal golpe comunista não é suicídio coletivo, porém, talvez, seja apenas mais um “e daí?”, quem se importa? Ou finalmente um golpe comunista, ou um suicídio coletivo! Pelo menos realizaremos o desejo de certos patriotas.

 

——————————————————————-

* Hugo Ciavatta é antropólogo e, obviamente, sem-graça.

 

Caso você queira se aprofundar um pouco mais nas temáticas abordadas neste artigo, o autor recomenda a leitura da “Abertura” de O Cru e O Cozido, “A estrutura dos mitos”, em Antropologia Estrutural e “Da Possibilidade Mítica à Existência Social”, em O Olhar Distanciado, todos de Claude Lévi-Strauss.

O Café com Pepino não endossa, necessariamente, todas as ideias e/ou práticas expressas no presente artigo.